quinta-feira, 21 de julho de 2016

Ruídos



Ruídos do mundo amanhecendo,
carros transitando, martelos batendo,
gatos miando, cachorros latindo,
pessoas conversando e o copo caindo.

Tantos sons o e poeta à surdina
caminha taciturno pelos pensamentos
observando atentamente o vento
que movimentas as pás do moinho;

moinho de tempo moendo os minutos
e pelo vão da ampulheta ele olha mudo
o grão de areia em seu poder resoluto
ponteiro invisível do relógio do mundo.

Ruídos do mundo esvanecendo,
tic-tacs incessantes nos corações
que batem, batem, batem e rebatem
todas as verdades que passam com o tempo.


Jonas R. Sanches
Imagem: Marcel Caran

domingo, 17 de julho de 2016

O Poeta e o Passarinho em uma Manhã Álgida de Domingo



O domingo amanheceu álgido
mas o céu era de azul índigo
sarapintado de nuvens albugíneas
que refulgiam aos raios solares
que ainda surgiam canhestros
a desorvalharem as flores multifárias
com suas cores variegadas e olores
que invadiam a atmosfera matinal
e, nas folhagens algumas gotas de aljôfar
para embeber a sede do passarinho
que bateu asas para poder cantar,
que bateu asas e abandonou seu ninho
e, nesse canto uma harmonia maviosa
fez o poeta despertar e admirar
e, com seus versos papalvos e incautos
fez-se também passarinho para duetar
com o bichinho de facetas multicores;
foram os dois pela manhã a versejar,
foram os dois pela manhã a revoar
todos os cimos e todos os sonhos
até poderem tornarem-se um só.


Jonas R. Sanches 
Imagem: Google

sábado, 16 de julho de 2016

Soneto que Atravessa a Noite para Olhar o Dia Nascente



Vi da noite o vento que soprava
de uma nuvem caminhando a esmo
a lua acima pujante flutuava
e a poesia era de outro eu mesmo

que derramava o sangue na página
bebendo a pena de um outro verso
na mente extensa como luz halógena
a refletir o ambíguo transverso.

Vi da noite a fumegante estrela
na madrugada a névoa derradeira
e o lusco-fusco a rejuvenescer

trazendo a aurora do amanhecer
e a inspiração então foi o feitiço
que retratou novo literatiço.


Jonas R. Sanches
Imagem: Erik Johansson

terça-feira, 12 de julho de 2016

Elã



O poema nasce de repente
como se fosse a extensão da gente,
extensão do olhar minucioso
que vê com os olhos da alma
e consegue transcrever no verso
a sensação da contemplação;
seja do canto ou do voo do pássaro,
seja da cor ou do olor da flor,
seja da aflição ou do desespero da dor,
seja da paixão ou da graça do amor,
seja do negrume ou da liberdade da morte,
seja do revés ou da sorte,
seja da juventude ou da velhice,
o poeta transcreve sem mesmice
tudo que transcorre em seu elã,
seja do ontem, do hoje ou do amanhã...


Jonas R. Sanches
Imagem: Portrait of Juan de Pareja, the Assistant to Velázquez, Salvador Dali

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Aurora Brumaceira



Aurora brumaceira
de céu pardacento
no rosto um bom vento
na árvore o inverno
roubando-lhe as folhas
e os galhos finórios
estalam num canto
que é música lôbrega
mas há um trinado
de tom mavioso
que o pássaro entoa
ao vasto longínquo
alvacento horizonte
que vela o arcano
num algoz dilúculo
infausto crepúsculo
que faz-se na alma
perenal do poeta
que contempla embatucado.


Jonas R. Sanches 
Imagem: Google
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