quinta-feira, 30 de julho de 2015

Reformulação



Reformei minha poesia,
fiz um puxadinho na varanda dos versos,
telhado novo com novas rimas,
piso frio na varanda das letras,
forrei todos os cômodos de cadernos,
rabisquei as paredes com novas cores,
enfim, fui morar nas páginas de um livro,
novamente novo, que reformulei,
fiz jardim para minha açucena
que floriu sorrindo na minha janela
e perfumou todos os meus infinitos dias.


Jonas R. Sanches
Imagem: Google

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Memórias de uma Estátua de Mármore na Praça Central



Eu vi no entardecer crepúsculo árido
e o sol bebericava a alma da lua
então minha alegria foi cataclísmica,
tão feliz que minhas lágrimas foram estrelas
que escorreram pelo céu noturno de minha boca;
boca poética, boca eclética, boca que beija a açucena;
mas, o entardecer foi embriagante
enquanto revoadas de garças dormitavam
nos varais infinitos dos meus pensamentos
com ceroulas dependuradas nos versos
de às vezes rimas ricas e às vezes rimas pobres
mas, sempre cantarolantes nas noites prateadas
refletidas no espelho calmo da lagoa
onde pesquei bagres, tambaquis e borboletas
de cores tão inóspitas que vinham a cegar
todos os olhares da estátua marmórea
que envelhecia solitária na praça central.


Jonas R. Sanches

terça-feira, 21 de julho de 2015

Memórias Imemoráveis de um Pássaro Viajor do Tempo



Babilonias e Jerusaléns entrecruzadas
no tempo onde o final era o começo
e Édens fumegantes e crematórios
em Sodomas e Gomorras cataclísmicas
com blues e um red label e pedras de gelo
derretendo nas pupilas do Senhor Reitor
ou de outro senhor qualquer numa esquina
recitando poesias e barbáries de Heinrich Heine
ou apenas passando a vista nos cadernos
onde Rilke proclamou suas memórias
e desfilou com uma camiseta vermelha do camelô
que comprou quando descobriu a máquina
do tempo e viajou singelos imemoráveis rituais
de agosto quando no dia vinte e dois
trouxe um presente de aniversário para meu pai.


Jonas R. Sanches
Imagem: Google

Da Palavra Capturada à Poesia Liberta



Da palavra capturada em pensamento
a poesia que revela esse momento
e no momento posterior esse poema
que se revela d’alguma alma em movimento.

Poema emblema do meu viver e entusiasmo
e o meu marasmo é como a flor apoteótica
que desabrocha em letras vivas no meu espaço
que é amplo e sideral em um jardim universal.

Poema símbolo do refrescar da ventania
ventando letras e versos comuns aos vendavais
que levam longe o grito surdo do olhar mudo
enlevam rimas dos pés descalços da procissão.

Da palavra que é derramada a inspiração
colhida fresca nos canteiros da imaginação
e a canção que é cantada é música infinita
e a poesia de um elã raro é d’alma rica.


Jonas R. Sanches 
Imagem: Randal Roberts

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Quando a Noite vem Chegando



A noite vem chegando,
passarinhos se aninhando,
a estrela rebrilhando,
o grilo vai cricrilando,
galinhas se acocorando,
o poema vai surgindo
nesse frenesi bucólico
e o vestígio do arrebol
deixa o céu melancólico
mas há coruja e curiango
despertando com piados,
um casal de enamorados
namorando à luz da lua,
transeuntes pelas ruas
retornando aos seus lares
para reverem suas famílias
e o poeta em sua ilha
acendendo o lampião,
atraído as mariposas,
empunhando o violão
para então fazer seresta
para o amor do seu coração.


Jonas R. Sanches
Imagem: Google

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Anfibologias Notívagas



A névoa foi desarvorando a colina
enquanto o pastor recolhia o rebanho
lobos uivavam à lua absconsa
enquanto um violeiro à testemunhava

entre as nuvens noctâmbulas nuas
que encobriam os segredos notívagos
das corujas multiscientes olhudas
que observam o dimanar dos seres

que se homiziam no silêncio da alma
que paira a resvalar mistérios
tão sérios que preludiam eras
que sobejam as tais mil profecias

dos dias que o sol não renasceu
e a turba se conturbou renhida
com pusilanimidade e poltroneria
e o dia ficou à eternidade

com a caligem débil repleta e obscura
extinguiu-se então a candura
restaram os pecados e o leão alado
abocanhou todas as alegrias.


Jonas R. Sanches
Imagem: Google

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Vendavais de Poesia



Os meus ventos são vendavais poéticos,
eles movem moinhos e nuvens,
carregam pétalas, folhas e flores,
carregam olores raros pelo mundo;

por onde passam varrem as tristezas
são o retrato dessa minha natureza
que é de poeta ou de asceta ou eremita,
é a minha senda, minha vereda transcrita;

transcrita em versos transparentes matutinos,
cantada em rimas pelas vozes eruditas,
simples cantigas nas cordas de um trovador
que se derrama libertando-se da dor.

Ventos que às vezes tornam-se redemoinhos
e levantam toda poeira desse chão
que está rachado, ressecado, emurchecido
mas é a marca dessa estrada do sertão;

e o coração é o consorte sertanejo
que bate forte, amiúde, esperançoso,
meu coração foi invadido pela açucena
e o meu sertão então tornou-se chuvoso.


Jonas R. Sanches
Imagem: Google

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Decrescência Social



A chuva chove, chove, chove...
A água
            pinga,
                        pinga,
                                    pinga;
O trabalhador se fode, fode, fode...
Lágrimas
                 pingam,
                                pingam,
                                               pingam;
Os impostos sobem, sobem, sobem...
O salário
               mingua,
                             mingua,
                                           mingua;
A população sofre, sofre, sofre...
E o governo
                      enrica,
                                  enrica,
                                               enrica;
O poeta escreve, escreve, escreve...
E a poesia
                   fica,
                           fica,
                                   fica.


Jonas R. Sanches
Imagem: Google

terça-feira, 7 de julho de 2015

Sobre as Conquistas Cotidianas



Das batalhas cotidianas
as vitórias merecidas,
das sementes semeadas
as flores mais coloridas,
dos escritos de minh’alma
a cura de minhas feridas,
dos suores da caneta
as letras de minhas poesias,
das estrelas das madrugadas
essa luz qu’em mim rebrilha,
dos percalços do caminho
aprendizados e sabedoria,
dos dias tão solitários
esse amor que é minha alegria,
que me aceita como eu sou,
que me apoia em minha lida,
que me abraça com carinho,
que é a razão da minha vida.


Jonas R. Sanches

Chuva da Madrugada ao Alvorecer



A chuva caía incessantemente
desde as três e vinte e sete da madrugada,
o sangue dos anjos escorria pelas sarjetas
lavando os pecados da seca miserável;

cães bebiam e uivavam à lua oculta
entre trovões que ribombavam surdos,
raios coriscavam rubros no firmamento
e iluminavam os olhos cegos da multidão.

A chuva caía incessantemente
debandando violenta até o amanhecer,
o sangue do céu lavava todos os telhados
e as flores murchas bebiam e embriagavam-se;

pássaros encharcados ensaiavam trinados
tímidos, aguardavam o ressoar do grito
de um urutau a examinar a pia alvorada
que ressurgiu sem cores, era plúmbea sua alma.

A chuva caía incessantemente,
seu gotejar invadia minha mente
e eu ouvia o recitar de sua poesia
que era molhada e escorria a reveria;

o sangue da caneta lavava meus pecados
e o poema então surgiu purificado,
enaltecido e misericordioso poema
que desorvalhou os olhos e ensolarou a alma.


Jonas R. Sanches
Imagem: Google

Búfalos Alados & Crianças Órfãs



Búfalos vermelhos sobrevoam a morte,
crianças órfãs em desertos siderais,
poetas loucos bebericando nuvens sólidas,
pitonisas profanadas em noites de bacanais
& as estrelas caminham devagar pelo cosmos
contando os anos dos anos dos filhos dos filhos

& na engrenagem universal relógios eternos
tic-taqueiam almas que vem e vão incessantes
e a dança cósmica da evolução é uma valsa
dançada em salões divinos pluridimensionais
onde a regência é harmônica e compassada
& o futuro repete o presente e o passado,

erros e acertos, não importa mais,
somente aprendizado & poesias púrpuras
sobre os dragões da consciência púdica;
búfalos vermelhos sobrevoam a morte,
crianças órfãs cavalgam em seus dorsos
espalhando a semente apocalíptica do final.


Jonas R. Sanches
Imagem: Google

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Os Caminhos Esdrúxulos do Poeta



O poeta caminha caminhos estranhos
em pensamentos às vezes esdrúxulos
à procura do verso incerto quotidiano
que acalma a alma que deita-se em elã.

O poeta caminha por vias siderais
colhendo estrelas e insuflando luz
no recôndito onde escarrapacha-se
e resguarda os sonhos no espírito.

O poeta caminha por linhas tortas
refastelando-se de observações
que derramam-se no pássaro livre
ou na borboleta difusa do amanhã.

O poeta caminha caminhos estranhos,
sendas oníricas de um pescador lunar
que se alimenta de papel e de caneta;
o poeta caminha sem ter onde chegar.


Jonas R. Sanches
Imagem: Kelvin

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Quartas-Feiras Pluviosas de Besouros Variegados



Concepções poéticas aprazíveis
em quartas-feiras de céu austrífero
e nuvens lívidas nimbosas
que se derramam sobre as cabeças
dos viandantes usuais anfêmeros
e das bromélias imotas e hirtas
de jardins estativos permanecidos
esperando o sol que desorvalha
o sonho de um besouro variegado
que passeia de pétala em pétala
em busca da incógnita do escaravelho
engolidor de borboletas rarefeitas
e bebedor de seiva dos  caules híbridos
de orquídeas psicodélicas sarapintadas
que se cromatizam junto à chuva
perseverante & incessante & perenal.


Jonas R. Sanches
Imagem: Google
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