domingo, 31 de maio de 2015

Estátuas de Sal



Caranguejos e pirilampos dançando rumba
em luais de praias concretadas de Fiji
e o luar é engolido pelos nevoeiros
de gafanhotos árabes de apetite voraz
devastando os milharais de Albuquerque
enquanto índios Comanche festejam
rodeando fogueiras de lenhas de pau-santo
e os olores fumegados sobem às nuvens
nucleares de uma guerra cataclísmica
que trouxe na manhã de outubro o fim
das crenças escravizantes de religiões antigas
& agora todos os povos clamam juntos
a um mesmo Deus único e displicente
que assiste sorridente de seu castelo de areia
as devastações sinistras apocalípticas
de uma terra desterrada sem comiseração
& é possível escutar o gemido do último coração
antes de um pôr-do-sol eterno e derradeiro
que finalmente trará a infinita escuridão
que cegará todas as estátuas de sal sobreviventes.


Jonas R. Sanches
Imagem: Google

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Correndo Atrás das Borboletas



Corri atrás das borboletas no verão
para roubar-lhes as cores vívidas,
engoli flores de sabores intensos
e descansei minhas pálpebras no Panamá
ouvindo um merengue e passarinhos
com penas transparentes e cetim
de vestidos coloridos e amnésias
do Sr. Alzheimer nas esquinas do tempo
& o Sr. Parkinson tremeu bandeiras
em estádios bebendo refrigerante
de maça e usando cartola azul-marinho
& paquerando as moças da bilheteria
que mascam chicletes de menta
comprados nas barraquinhas de camelôs
que acordam as três e quarenta e sete
com despertadores chineses irritantes
na beirada da cama em cima do criado
mudo & surdo e a escova de dente na pia
espera por uma liberdade impossível
de adquirir nas sextas-feiras santas
e nos sábados de aleluia e nos domingos
onde o poeta estica suas pernas na cadeira
de vime & lê jornais da semana passada
onde as notícias são as mesmas de amanhã
e eu corri atrás das borboletas
queria ter asas pigmentadas
para voar de flor em flor nesse jardim sideral.


Jonas R. Sanches
Imagem: Google

quinta-feira, 28 de maio de 2015

O Meu Amor Chegou



O meu amor chegou
há um ano atrás,
me trouxe borboletas,
libélulas e outras mais;

acolhi-o em meu peito
e, mesmo eu cheio de defeitos
abraçou-me com ternura
então a nossa história
até hoje perdura.

O meu amor chegou,
chegou de mala e cuia;
abracei-a com minh’alma
e cantei mil aleluias,

pois, foi a maior alegria
qu’eu senti naquele dia,
foi um dia interminável
desse amor inenarrável.


Jonas R. Sanches
Imagem: Google

terça-feira, 26 de maio de 2015

Sangue de Mamute



Mamutes congelados nas noites
de luar inóspito e hienas famintas
procurando carniças suculentas
que os abutres abandonaram aos vermes
em trincheiras na primeira guerra/
com metralhadoras famintas de carne
& as balas cortam a pizzas
e as facas destrincham os canibais
do centro-oeste africano em manhãs
de sóis que reverberam os sonhos
de Salomão & da rainha de Sabá
quando dos turíbulos emanaram olores
das flores raras do país dos incensos.


Jonas R. Sanches 
Imagem: Google

Frasco de Tinta Branca



Eu vivia naquela vasta prateleira, comigo viviam outros como eu ou em outros tons... Ali eu calado sonhava, sonhava em um dia poder sair.
Eu me entristecia, pois meus irmãos de cores vívidas eram os preferidos por aqueles que vinham ali para comprar pincéis, telas e meus irmãos.
Eu calado sonhava...
Sonhava em poder adentrar aqueles campos bucólicos em uma tela de aquarela, sonhava ser o sol beijando a face de um pincel que delineia a forma surreal e abstrata de um louco menestrel.
Eu me entristecia por estar ali na prateleira, sem ser notado, sem ser comprado, sem ser tão pigmentado, era eu ali apenas um borrão descolorado.
Eu calado sonhava...
Sonhava ser cor no rosto melancólico do palhaço que tão triste alegra a vida que passa sem graça, sem ter pena de ninguém.
Eu me entristecia, mas enfim chegou o dia que eu fui arrebatado, hoje eu vivo neste quadro, sou mil nuvens de algodão, sou a pena da andorinha que revoa no sertão.
Eu calado ali no quadro e as almas me olhavam... E as almas sonhavam...


Jonas R. Sanches
Imagem: Claudia Simões

domingo, 24 de maio de 2015

A Caminho do Fim



Era um caminho vazio, daqueles abandonados pelo tempo, o capim devorava os restos do concreto das calçadas, avançando ao céu por entre as rachaduras tão antigas quanto o arvoredo que esticava suas sombras até os arredores circundantes do seu vasto tronco.
Eu caminhava já sem saber o porque de caminhar este caminho, a mente se despedia dos pensamentos de tal forma qual elos desconectados de uma corrente, o vento que ventava livre beijava-me a face já judiada pelas intempéries da vida e se alojava nos sulcos profundos de minhas rugas, o céu era pesado e suas nuvens plúmbeas se dependuravam no firmamento, ameaçadoras de um breve temporal, um trovão cantou junto ao piado de um nhambú que se acocorava em uma das muitas moitas de aloe-vera enraizadas ao pé de uma estátua de alguém que já foi esquecido pelo mundo.
Apertei o passo, a dança dos primeiros pingos da chuva começavam a rodopiar à ventania que alimentava a cada minuto, de repente o aguaceiro espesso e denso precipitou por entre raios amarelo-azulados, e meu corpo decrépito pela velhice se encharcou.
Parei sob o arvoredo para proteger-me do grosso daquela imensa chuva; ali fiquei a observar os pássaros que bailavam felizes por entre os galhos molhados; sentei-me e com aquela bela imagem eu morri em paz.


Jonas R. Sanches
Imagem: Google

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Labirinto Astrológico



Emaranhados de pensamentos
dependurados na lua crescente
e há nômades cantando salmos
nas vielas sujas e sangrentas de Bagdá
em noites de sol e eclipse da estrela
cadente & nos templos harpas
dedilhadas por pitonisas nuas
que se enveredaram por caminhos
mágicos e com asas voaram séculos
passados e adormeceram na ampulheta
que guardava os segredos de Vênus
em pergaminhos abarrotados de signos
astrológicos & astronômicos
em uma sexta-feira infinita
de sonhos e quimeras no labirinto
de um fauno cego e doente
que foi esquecido nas páginas
de uma fábula antiga do Egito.


Jonas R. Sanches
Imagem: Zodiaque de Denderah

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Alvorada Refulgente



Manhã de orvalho fluidificante
na face da folha tenra e álacre
que irrompe em jardim venusto
e então uma flor a se abrolhar;

da noite ficou cinsolado ressaibo
e a postrema estrela desalumiou
no horizonte impérfido sopitou
deixando a alvorada nua incipiente.

Manhã remansa de puro armistício
onde o poeta uiva o seu aprazimento
é momento jocoso e de contentamento
que desabrocha lírico em seu desfastio;

aurora iluminou-se com o sol refulgente
que vicejou no leste para amainar a mente
que em tino e cautela olhava transeuntes
e no momento axiomático poetizou sementes.


Jonas R. Sanches
Imagem: Google

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Pareidolia



Luzes nevoentas e pareidolias
de relógios transversais e almas
penadas, vagando entre dimensões
e sonhos; pictoricamente sãos
e as flores são como anedotas
contadas em um jardim antigo
colorindo infantis imaginações;
nuvens nevoentas trazem chuva
nas manhãs cinzeladas de maio
e o vento já sopra friento
demarcando que é próxima a estação
do inverno, do inferno, do trem
das dez e trinta e quatro
que carrega os transeuntes solitários
para bem pra lá dos montes verdes,
lá pra onde o poeta escondeu
seu último livreto de sonetos.


Jonas R. Sanches
Imagem: Eborch

terça-feira, 19 de maio de 2015

Silêncio Procrastinador



É o silêncio procrastinador
que estremece meus tímpanos
naquele blues antigo
onde as gaitas são vilipendiantes
e as guitarras surdas alucinam
os lábios adocicados de fel
onde muitos sucumbiram nas noites
nauseabundas dos hippies
que alternavam exultações
e adormeciam em tardes de sol a pino
na varanda descalabrada do céu
ouvindo um vinil do The Yardbirds
enquanto havia Jimmy Page
compondo simphonias alienígenas
e acendendo candelabros na noite de natal.
É o silêncio procrastinador
da morte & as lágrimas são mudas.


Jonas R. Sanches
Imagem: Google

Sobre os Pássaros à Minha Varanda



Sentei à varanda do quintal
e alimentei a minha alma à visão,
ali no chão a reunião de passarinhos,
pardais e melros, tico-tico e canarinho.

Dentro do âmago coração titubeante
pelo trinar mavioso de um sabiá
no mamoeiro vislumbrei o alimentar,
satisfação pela conjectura do olhar.

Deitei o espírito no indício de esplendor,
no azul esbelto das penas de um sanhaço
a beliscar jabuticabas em seu regaço,
a estridular uma canção ao coração.

Semblante calmo àquela vermelhidão
do tiê-sangue que veio lá do sertão,
e tão bonito agora a imagem que ilumina
nas penas alvas daquele galo da campina.

Pássaros livres, reunião de passarinhos;
todos contentes com seus filhotes no ninho,
e eu aqui poetando  minha felicidade
ao alimentar a passarada, moradora da cidade.


Jonas R. Sanches
Imagem: Google

domingo, 17 de maio de 2015

Versos Improfanáveis



Ebulições transdimensionais
em cabeças decapitadas nuas
dependuradas pelas ruas
dos prostíbulos do nunca mais
& já não há abotoaduras vazias
em camisas de vênus e de marte,
somente vagantes inóspitos
borboleteando polens por aí
& o sol já não é o mesmo,
não é mais; fotossintetizando
os olhares carnais no abismo
onde anjos e demônios bebem
xícaras e xícaras de chá de cogumelos
frescos; e o mundo é a foz do caos
& o poeta adormeceu durante anos
em catacumbas profundas e isoladas
onde nem Deus nem o Diabo
puderam profanas seus versos.


Jonas R. Sanches
Imagem: Google

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Monocromático



Abriram-se os ataúdes
e as mortalhas foram descerradas
entre os berberes hippies
em shows de Bob Dylan
& cores expostas no videocassete
lembravam as tardes
& Woodstock estava acontecendo
enquanto foguetes viajavam
& Neil Armstrong pisava a lua
e comia cereais em tigelas
de flores astrais decapitadas
por foices formidáveis
& na noite dos botequins
procissões de mariposas velhas
em lamparinas à querosene
queimando os pavios do mundo
& o estopim foi da paciência
desfalecida pelos semáforos
quebrados & monocromáticos
em uma esquina esquecida
na rua da avenida sideral.


Jonas R. Sanches
Imagem: Google

quinta-feira, 14 de maio de 2015

A Sede dos Girassóis



O cataclismo é iminente
nas sombras turvas dos espelhos
onde girassóis caminhavam sedentos
por cálices noturnos de orvalho
& sangue de nenúfares
afogando-se em turmalinas
nos pescoços embriagados
de donzelas prostitutas
pelas esquinas ensombradas
do desejo carnal das borboletas
roubando pólen de deuses esquecidos
em baús trancados em Sião
& lápides rebrilham em sóis noturnos
onde luas são engolidas
pelas gargantas fétidas do diabo.


Jonas R. Sanches
Imagem: Vincent van Gogh

Loquacidade



Subterfúgios poéticos amenizam
os paradoxos anímicos universais
e já não é o que não foi, e nada mais
que versos que o tempo eternizam.

Anuviamentos a dissiparem o olhar
que mira longe a distância do caminho
e já não é solidão, não mais sozinho
que o poeta se colocou a caminhar.

Verbos loquazes pela pena derramados
em um caderno tão profundo e fecundo
de folhas anacrônicas da árvore do mundo;
e a ode foi o lampejo estro inenarrado.

Verbos pujantes ululados com perspicácia
narrando em versos um universo de argúcia
e à porfia d’uma poesia de sã astúcia
é o conforto a alma inerte em literácia.


Jonas R. Sanches
Imagem: Oleg Shuplyak

Ventos sob Flores Poéticas



Eu adormeço flores
de mil olores místicos
como incensos rústicos
de fumos alvadios.

Eu amanheço pássaros
de cantos vastos lúdicos
como trombetas áridas
de anjos tão vadios.

Eu entardeço nuvens
de tons pesados plúmbeos
como o trovão dos ventos
em céus de arlequim.

Eu anoiteço estrelas
de brilhos fumegantes
como explosões atômicas
de infernos de jasmins.

Eu vivencio as letras
de infinitos gametas
como o nascer da vida
no ventre do planeta;

pois sou verve poética
e meu elã esdrúxulo
é um estranho intruso
no verso obtuso.

Eu adormeço flores
em meu leito à campa
enquanto a alma dança
a sinfonia do meu fim.


Jonas R. Sanches
Imagem: Google

terça-feira, 12 de maio de 2015

Corpo de Árvore & Sangue de Água



Como árvore verde e fina
curvei-me ao forte vento
mas, não cedi ao rebento,
não quebrei-me, resisti;

resisti aos tombos cotidianos
e adquiri a experiência dos anos
e, adquiri a poesia dos dias;
dias de tristezas, dias de alegrias.

Como a água contornei obstáculos,
desviei-me das afrontas
mas, não fraquejei na batalha,
não me acovardei nem fugi;

combati o bom combate
usando a caneta como espada,
meus golpes foram as palavras;
algumas ríspidas outras dóceis.


Jonas R. Sanches
Imagem: Google

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Devaneios de um Ladrão de Estrelas



Roubei estrelas e enfeitei a árvore de natal
mas, já não é mais época natalina
e as estrelas secaram em lágrimas siderais;
secaram galáxias que dependurei no varal,

restaram canteiros de supernovas,
quasares e blasares em supra erupção
vomitando raios gama na via celeste;
anjos embriagando-se de novos sóis.

Roubei cometas e viajei infinitos
mas, era um tempo de ventos estelares,
minhas ampulhetas continham areia lunar
que colhi em um sonho sônico-planetário

e guardei em um recipiente oval no armário;
Jimi Hendrix sentou comigo na Torre de Babel
então fizemos planos, fizemos poesias
que ficaram cinzeladas nos pilares do batel.

Roubei as asas de arcanjos e de Ícarus
mas, já não era tempo de voar,
guardei-as sob carvalhos centenários
e, cantei a harmonia de um poema louco.


Jonas R. Sanches
Imagem: Google

sábado, 9 de maio de 2015

Amo-te Mãe... Amo-te filho!



- Rezo por ti meu filho!
- Rezo por ti minha Mãe!
Tantas tristezas eu trouxe a ti?
Mas, amo a ti minha Mãe!

- Rezo por ti meu filho!
rezo com a bíblia na mão,
pois, amo-te junto a helicônia!
- Não sei qual flor é mais bela, Mãe!

- Rezo por ti meu filho!
- Rezo por ti minha Mãe,
pois és o ventre vivificante;
se ti, não haverias eu, obrigado Mãe!

- Rezo por ti meu filho!
Porque amo-te como eu mesma;
amo-te e quase odeio-te pelo partir
que é quando não depende mais de mim.

- Rezo por ti minha Mãe!
Rezo porque amo-te demais,
tu foi o ventre ferido da minha nascença;
amo-te, pois de Mãe tenho a ti.


Jonas R. Sanches

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Livro - O Padre e o Fidalgo




É com muita alegria que apresento a vocês meu novo livro... "O Padre e o Fidalgo"!

O livro já se encontra à venda no Clube de Autores pelo link abaixo:


São Cristóvão da Água Negra, esse é o lugar onde tudo se desenrola, um pequeno vilarejo, localizado por entre algumas montanhas, cercado de florestas e de histórias de arrepiar até o mais crente ou o mais ateu das pessoas; foi ali naquele lugar, onde outrora o Fidalgo havia conhecido as bonanças e alegrias da infância, que agora iria conhecer a astúcia dos poderes das trevas, mal esse que faria de tudo para reaver-se de um sentimento de vingança misto ao próprio mal em sentimento.

Seria neste mesmo vilarejo que o Fidalgo reencontraria Padre Claudêncio, um velho sacerdote católico, que havia se enveredado por curiosidade em caminhos sinistros e místicos; Padre Claudêncio seria o pilar onde o Fidalgo encontraria apoio durante esses dias tão negros que recairiam sobre sua cabeça.

Magia, terror, suspense e amor... Um misto de todos esses sentimentos é o que o leitor encontrará nessas páginas.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Poesia Livre



Gosto da poesia livre
versejando à liberdade,
sem regras, sem imposições;
apenas o elã dos corações.

Gosto dos pássaros livres
voando em liberdade,
sem gaiolas, sem alçapões;
apenas o canto pelos sertões.

Gosto de pensamentos livres
construindo em liberdade,
sem rédeas, sem grilhões;
apenas devaneios e inspirações.

Gosto das borboletas livres
colorindo em liberdade,
sem crisálidas, sem sanções;
apenas asas leves nas imensidões.

Gosto de versos livres
poetando à liberdade,
sem métrica, sem denominações;
apenas o poeta e suas alucinações.


Jonas R. Sanches
Imagem: Herscovici Brussels

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Quando a Tarde é de Procela



A tarde chegou nevoenta,
o céu plúmbeo pairou no ar,
o vento indica vindoura procela,
esquálido é o meu olhar.

Caia chuva, ventem vendavais
e  carreguem as cinzas dos mortos
para um lugar longínquo
onde as flores não nascem mais.

Caia chuva, chuva de letras e estrelas,
chuva de folhas e pétalas outonais,
lave todas as almas penadas
que insistem em assombrar os sonhos.

A tarde é de firmamento pesado
mas, a poesia é insistente e permanece
por entre as criptas antigas esquecidas
que guardam histórias de santos e soldados.


Jonas R. Sanches
Imagem: Google

terça-feira, 5 de maio de 2015

Dos Espelhos Convexos aos Leões Alados nos Píncaros dos Sonhos



Rememoramentos de sonhos e rituais,
crianças bebendo sangue em cálices de orvalho,
cães lambendo feridas de um coração mendigo,
adolescentes possuidores de DNA cristal e índigo.

Pássaros fugitivos de gaiolas semiabertas
sobrevoando carcaças de soldados apodrecidos
em uma trincheira esquecida na esquina do Vietnã,
crianças adormecidas esperando as cores do amanhã.

Homens de pedra acolhidos no seio da montanha
ocultando-se dos espelhos côncavos e convexos
e no píncaro entre as nuvens anjos fumam cigarros
mentolados, enrolados em folhas de pergaminhos antigos.

No bramir do aço da espada que perfura a carne
o som melodioso é o galopar do cavalo da morte
que vem ceifar o bons e os maus à eternidade;
restará apenas no caderno velho pedaços de poesias

mas, inda há leões alados com suas trombetas douradas
assistindo filmes antigos em um televisor sem cor,
velhos em suas cadeiras de balanço ouvem rádio
esperando uma nova notícia que lhes tragam alegria.

O poeta resume sua insanidade pelas cartas do tarô
mesmo que seja de previsões inconclusivas o sorriso,
o poema sempre nascerá e morrerá pela caneta
que carrega todas as aspirações de um livro sem título.


Jonas R. Sanches
Imagem: Google

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Das Infinidades da Poesia



A poesia chega como vendaval
e vai ventando letras e estrelas
redemoinhando toda sensação
ziguezagueando pelo coração.

A poesia é fogo a crepitar na alma
e é refrigério a refrescar o espírito,
é dor e alegria, é o real e o mito,
é o verbo encarnado na página do livro.

A poesia é a cor que inda não foi pintada
em tela de aquarela ou em pétala de flor,
a poesia é o ódio ou o intenso amor,
é a voz que estribilha no canto de um tenor.

A poesia é nuvem sempre a mudar de forma
em céu de tom carmim ou mesmo tempestade,
é chuva no deserto, calor no polo norte,
é o tempo que não para, que rouba a idade.

A poesia é salmo vertendo dos poetas,
é a palavra sábia gritada pelos ascetas,
é aquela luz noturna no voo do vaga-lume,
é o negror e a luz que se encontram no túnel.


Jonas R. Sanches
Imagem: R. Crawford

domingo, 3 de maio de 2015

Soneto de uma Manhã de Domingo



Cantou o sino na torre da igrejinha
todos beatos caminharam procissão
o sol raiava aviltando a manhãzinha
entre as palavras, cantos de oração.

Cantou a aurora e raiou a passarada
enternecendo a alvorada do sertão
a poesia da mente foi extraviada
pelas palavras na voz do sacristão.

Domingo manso e o sol é ousadia,
o rio que corre afogou tua saudade,
o pintassilgo trinou sua melodia

foi maviosa eu lhe digo em verdade;
foi o poeta encarnado n’algum soneto
escrevendo e bebendo um café preto.


Jonas R. Sanches
Imagem: J. Quental

sábado, 2 de maio de 2015

Romântico



A saudade me deixou
quando a ti eu encontrei,
novos mares naveguei
e o inverno se alterou
com olores refinados
que a açucena me encantou.

A vida se coloriu
quando a mim você sorriu,
a alegria renasceu
e o coração enterneceu
com sentimento augusto
que por ti floresceu.

A morte ficou distante
e nada é como antes,
agora sou alegria
em teu seio de alegoria
meu deleite é profundo
onde a dor não mais seria.

A sensação agora é vívida
e a flor então é lívida,
flor de açucena e de amor
que resvala em sua cor
de puder desfalecido
que vivenciou o esplendor.


Jonas R. Sanches

Bolinha



Tem os pelos negros como o céu noturno,
olhos amarelos como vaga-lumes,
cavanhaque branco indicando a idade,
sorriso serelepe desde a mocidade.

Fica a me esperar latindo no portão
quando bem cedinho eu vou comprar o pão
e quando eu retorno é festa exagerada
até parece que eu fui viajar pra Pasárgada.

Quando está estressada arranha minha porta
ou fica chorando na minha janela,
quebra minhas plantas ou senão entorta
depois finge descaradamente que não foi ela.

Essa é minha cachorra, é minha Bolinha,
minha companheira dentro da cozinha,
quando quer almoço olha tão tristinha
mas é tão esperta essa safadinha.


Jonas R. Sanches

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Nosso Amor no Cair da Noite



A noite caiu e as estrelas
vigiavam o negro firmamento,
eu tomei as mão delas e juntos
celebramos o nosso momento;

no jardim um olor grandessíssimo
emanava da dama da noite,
nossos olhares se entrecruzavam
e o sorriso era nosso deleite.

A noite caiu e o luar
prateava o nosso caminho,
nossas almas se entrelaçavam
em um gesto de amor e carinho;

no jardim o cantar da coruja
e o olhar era grandiloquente,
nossas asas voaram em sonhos;
eram sonhos de eternamente.

A noite caiu e na alcova
nosso abraço tornávamos um,
entornando paixão e regaço
nossos laços e a guarda de Oxum.


Jonas R. Sanches

Fluxo



Às vezes são luzes outras são trevas
mas, nada é totalmente intransponível
todos os obstáculos se desfazem na mente
e o poeta então se refaz no consciente.

Derramo-me em rios de poesia
e caudaloso sigo o fluxo do coração,
rios intravenosos de sensações
que fluem como novos pensamentos.

Liquefaço-me em rimas e versos
mas, o ser é complexo e o reflexo
no espelho é o outro lado da moeda,
cara e coroa em um jogo de azar.

Às vezes é o sol, às vezes é lua e chuva;
incalculáveis são as miríades de estrelas
mas, nas constelações há o poema perfeito
de letras divinas pintadas na aquarela do eterno.


Jonas R. Sanches
Imagem: Google
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