terça-feira, 26 de maio de 2015

Frasco de Tinta Branca

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Eu vivia naquela vasta prateleira, comigo viviam outros como eu ou em outros tons... Ali eu calado sonhava, sonhava em um dia poder sair.
Eu me entristecia, pois meus irmãos de cores vívidas eram os preferidos por aqueles que vinham ali para comprar pincéis, telas e meus irmãos.
Eu calado sonhava...
Sonhava em poder adentrar aqueles campos bucólicos em uma tela de aquarela, sonhava ser o sol beijando a face de um pincel que delineia a forma surreal e abstrata de um louco menestrel.
Eu me entristecia por estar ali na prateleira, sem ser notado, sem ser comprado, sem ser tão pigmentado, era eu ali apenas um borrão descolorado.
Eu calado sonhava...
Sonhava ser cor no rosto melancólico do palhaço que tão triste alegra a vida que passa sem graça, sem ter pena de ninguém.
Eu me entristecia, mas enfim chegou o dia que eu fui arrebatado, hoje eu vivo neste quadro, sou mil nuvens de algodão, sou a pena da andorinha que revoa no sertão.
Eu calado ali no quadro e as almas me olhavam... E as almas sonhavam...


Jonas R. Sanches
Imagem: Claudia Simões

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