sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Olhares Atemporais



Olhando os contornos dos olhos do tempo
eu vejo a juventude esvair-se ao vento,
eu vejo os reflexos convexos da infância,
e o tempo me cega tomando-me a esperança.

Passam horas, minutos sagazes, segundos
e, eu corro a estrada d’algum tempo do mundo
que passa depressa e dispersa os momentos
desconexos; e o alento é o tempo elemento.

Passam anos, meses longínquos e os dias
e, eu me atraso algum século atrás
mas é a vida que passa depressa demais
e a morte que chega não volta para trás.

Olhando os contornos vejo os olhos vermelhos
machucados e as lágrimas são de ampulhetas
que guardavam desertos, incertos planetas
e eu sou o eterno guardado nas letras.

Passam vidas compridas e a morte é curta,
então curto o momento, meu carpe diem;
então sigo sorrindo, pois está tudo bem,
então sigo escrevendo, antevendo o que vem.


Jonas R. Sanches
Imagem: Google

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Flor do Marasmo



O meu marasmo é flor de calmaria
que desabrocha no limiar do dia
pra colorir a esfinge do sertão,
misteriosa versificação

que alimenta a senda do poeta,
que desalenta a verve do capeta
que reza o terço na velha capela
e faz promessas pela alma alheia.

O meu marasmo é flor de calmaria
que desabrocha em cores desditosas
deixando a inveja no olhar da rosa
que despetala-se nua e espinhenta

e alimenta a terra dos jardins
que desfloram em tons carmesim,
que desafora a velha flor do lácio
inculta e bela como o fez Bilac.

O meu marasmo é flor de calmaria
mas minha sina é contemporânea
em letras bruscas dessa miscelânea
que no final termina em romaria.


Jonas R. Sanches
Imagem: Google

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Poesias & Poesias



Poesia idílica, onírica,
sensação surreal irreal
entre vislumbres reais
de seres transcendentais.

Poesia condoreira, hugoana,
pseudos-grandiloquentes,
versos evolucionistas, nacionalistas
que falam sobre a opressão.

Poesias realistas, detalhistas,
contemplação das extravagâncias
d’uma natureza esplendorosa,
versos bucólicos do meu sertão.

Poesias repletas de lirismo
d’onde os românticos permitem
expressarem suas paixões;
movimentos platônicos irascíveis.

Minha poesia universalista
que às vezes tende ao parnasiano,
que às vezes em letras barrocas
discorre sobre minhas outras emoções.


Jonas R. Sanches
Imagem: Google

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Cuidar-te-ei no Pôr do Sol dos Tempos



Cuidar-te-ei no pôr do sol dos tempos
e caminharemos por passarelas de flores
e nossos olores com olores almiscarados
das lembranças dos brejos da infância.

Sentaremos naquele banco da paineira
e ali até nossos cabelos forem paina
e nossos espíritos tornarem-se um
nas lembranças feitas em nossos livros.

Contaremos estrelas rentes à brisa de verão
e nosso beijo no bafo quente do cosmos
e nossas sementes germinando, florindo
nas insistências oníricas de nossas vidas.

Cuidar-te-ei no pôr do sol dos tempos
e vislumbraremos o arco-íris redentor
após a chuva que regou o nosso amor
e regou as plantas sensíveis dos corações.

Sentaremos de mãos dadas na nossa velhice
e cantaremos cantigas antigas de outrora
e adormeceremos no abraço feitiço da lua
que prateia teus olhos castanhos de mel.


Jonas R. Sanches
Imagem: rogeriabreves.blogspot.com.br/

Ataduras e Carrosséis



Enquanto o sol escorria pela montanha
eu bebia drinks infernais com Marx,
opalas vermelhos atravessavam vias-lácteas
tocando blues e estrelas em flautas transversais

e Baudelaire se esgueirava pelos pubs
em uma rua de transeuntes de biquínis,
loiras, velhas e cães bizarros sorridentes
e Tiradentes ressuscitava de uma tumba de rosas

e seus pedaços se juntavam com super bonder
e caminhava sorridente por Copacabana,
a lua roubava a cena e batia carteiras no metrô
enquanto indigentes tomavam banho de mar,

um poeta embriagado beijava as donzelas
que passeavam em Nova Iorque em vestidos de cetim,
Hitler tomava café sem açúcar com demônios
enquanto Stalin engraxava sapatos no Leblon,

pobres almas se alimentando de chucrutes
em um Bar Mitzvá pelas ruas de Jerusalém
enquanto múmias chinesas envoltas em ataduras
brincavam em um velho carrossel em Ibiza.


Jonas R. Sanches
Imagem: Google

Das Noites que não Amanhecem



Tento amanhecer, mas é noite em mim,
estrelas profanas dançam frenéticas
e, a voz do povo deve rugir como o trovão
e, a voz do povo deve gritar em união.

Tento amanhecer, mas a noite é negra na alma,
estrelas bizarras cadentes da morte certa
e, a voz do povo é o ronco do gigante
que adormecido sonha por dias melhores.

Tento amanhecer, mas roubaram o sol da esperança,
no firmamento vejo prenúncio de chuvas,
no firmamento são plúmbeas as nuvens desse olhar
que vigia, mas tão cego é o homem idiossincrático.

Tento amanhecer, mas os pássaros ainda dormem,
não quero despertar os pardais involuntários,
quero apenas mergulhar nesse silêncio brusco
e contemplar da poltrona o sofrimento de amanhã.


Jonas R. Sanches
Imagem: Google

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Vou Seguir...



Vou seguir, um dia após o outro,
minha poética é meu recanto de paz,
deixarei a poeira e a ira para trás
e seguirei, com meu caderno de capa carmim.

Vou seguir pela labuta do cotidiano,
sonhar, amar, fazer meus planos;
saber me libertar dos meus enganos
e seguir até onde o vento me levar.

Vou seguir a minha lida, curar a ferida
com minha pena, sem mais problemas;
deixarei em um canto a bagagem
e seguirei com fé, sonho e coragem.

Vou seguir, pois parar de lutar é morrer,
vou seguir sem deixar a alma estarrecer,
vou de mãos dadas ao meu amor, eterno;
vou abraçado aos meus cães, sorrindo.

Vou seguir pelas linhas das poesias
mesmo que tentem me parar, vou seguir
e construir em meu lar um reinado
de esperança, vou seguir e voltar para a infância.


Jonas R. Sanches
Imagem: RakeshRocky.com

A Realidade de um Circo Chamado Brasil parte II



Meu coração que retumba indignado
por essa massa que deturpa a razão
reelegendo a “presidenta” ou “presidANTA”
depois morrendo em sua subnutrição.

Meu raciocínio não consegue distinguir
se é ignorância ou somente perversidade
contra àqueles que almejaram reais mudanças
e definharam pelas mãos da iniquidade.

O meu poema é o vestígio de algo maior
como o imenso povo brasileiro dividido
em duas classes, ignorantes e racionais;
e o bom senso eu lamento não existe mais.

O meu poema se encerra borrado em lágrimas
que escorrem junto à esperança que se esvai;
a minha alma se aflige por estas páginas
de um pais que é governado por animais.


Jonas R. Sanches

sábado, 25 de outubro de 2014

Sobre o Teu Doce Perfume



No perfume da flor
a sensação do amor;
meu amor, flor de açucena;
minha pequena, alfajor.

No perfume do travesseiro
é o teu cheiro gostoso,
meu amor carinhoso
que afaga o teu querer.

No perfume em meus dedos
seu olor, sua candura
de su’alma qu’é pura;
cheiro de bem querer.

No perfume da alcova
o seu hálito de rosas,
sua pele cor-de-rosa
envolvendo-me aos braços.

No perfume do açoite
você é a dama da noite
que invade os sentidos;
incensos desmedidos.

No perfume de agora
em você me demoro
pois, teu corpo que adoro
é o regaço de minha paz.


Jonas R. Sanches

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

A Poesia que Raiou com o Sol do Nosso Amor



A poesia raiou pela manhã
como sol que beija a pétala
orvalhada, e fluiu a sensação
agradável de um dia com você.

A poesia nasceu de minh’alma
como a flor de lótus, tão alva
que desabrocha em pântanos
sombrios, floriu como nosso amor.

A poesia voou pelos recônditos
do espírito, acalentando as dores;
sensível meu olhar a te olhar,
mavioso o teu olor a se espalhar

pela alcova; amanheceu a primavera
e nos teus olhos reflexos enigmáticos
de begônias, de margaridas, de mim;
amor de açucena e pássaro, colibri.

A poesia percorreu a luz do dia
e entardeceu no regaço do arrebol
que festejou com cores nossa paixão
e adormeceu deixando a noite ao coração.


Jonas R. Sanches
Imagem: Andrew Schoeman/Daily Mail

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Sandices Poéticas




Há às vezes em que as dores me incomodam
e as flores que não germinam impacientam-me
e, os sonhos que semeei inquietam-me;

resta-me o refúgio em uma caneta e um papel
virgem, disposto a entreter meus devaneios
que de momento são incontáveis súplicas,

sandices de poeta, incoerências de poemas
que retumbam no peito desde o amanhecer
até o anoitecer, e, o travesseiro repousa após

os relógios contarem as horas, minha rotina;
acordo às vezes e escrevo minhas dores,
elas se tornaram envelhecidas e crônicas

e, meus analgésicos são insuficientes;
resta-me o refúgio em páginas ainda em branco,
páginas insipidas que preencho à minha dor,

páginas escritas, infinitas poesias de amor,
versos extraviados que inda não sei de cor
e, a noite e o dia se misturam em minha estupidez

e, as alegorias nefastas enlevam à insensatez;
então me debruço à escrivaninha à meia luz
e deixo o vento varrer para longe minhas memórias.


Jonas R. Sanches
Imagem: Google

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Poetas Eternos



Poetas eternos que nascem e morrem no verso
olhando o espaço e o desembaraço da lua,
contando seus passos na letra despida da rua,
regando o regaço da deusa que tornou-se musa.

Poetas eternos de invernos sombrios, primaveras
de flores e cores, crepúsculos entardecidos,
de sol despedido emergindo na noite infinita,
de estrela cadente e a mente eloquente da lida.

Poetas eternos viventes em páginas de um arrebol
pintando com as letras as formas incertas do mel,
borrando o batom vermelho da dama que não é sua,
uivando descaradamente na noite fria e tão nua.

Poetas eternos de invernos sombrios, primaveras
de mortes e vidas, de pétalas rubras da guerra
que explode e sacode no peito o bem e mal interior,
que invade as entranhas do ser matando-o de amor.

Poetas eternos que cantam em vozes e gritos surdos
entoando a canção do coração até os ouvidos do mundo,
harpejando as liras tranquilas de um céu infernal
que transmuta essa letra em tesouro emocional.

Poetas eternos de invernos sombrios, primaveras
que por eras semeia na areia a rima que o mar levou
com a onda que veio trazendo aquilo que ficou
esquecido ao relento no pensamento que amou.


Jonas R. Sanches
Imagem: Google

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Das Lonjuras Exacerbadas da Vida



Nas lonjuras que me levam os sentimentos
eu me aprofundo pelos poços da saudade
e vejo a morte face a face que carrega
o afluente que sequestra a vida bem pra longe.

A minha sátira é comovente e tão dorida,
risos esparsos entre espasmos de amor
que fere e alegra impulsivamente; sensação
e, há a lembrança longínqua do fundo de mim.

O corpo padece em exacerbadas feridas
e a lida corrente engole as mentes cansadas,
descalços os pés que galgam a terra rachada
dos solos inóspitos por onde anda o coração.

Nas minhas lonjuras o olhar é algo distante
que esfaqueia em tristezas as luzes do horizonte
e a alma exaurida vai de carona com Caronte;
são águas que fluem em rios de lágrimas.

A minha sátira tem sangue e coágulos antigos
deixados em páginas d’outrora já amareladas
em livros de espíritos tão jovens já eternizados
que assinaram com a morte todos seus escritos.

E o corpo padece em penúrias e falsas injúrias
corrosivas e furtivas das vivas alucinações,
emoções já escassas cansadas dos orvalhos
que amanhecem molhando todas as conclusões.


Jonas R. Sanches
Imagem: Google

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Aos Poetas meus Versos Vespertinos



Ah, os Poetas, seres de almas repletas
de cores exóticas e flores raras
colhidas em jardins celestiais;
ah, os Poetas, anjos semeando poesias
com versos dóceis, às vezes amargos,
outrora tristes, algures calados,
muitas vezes são seres alados
que sobrevoam os píncaros dos devaneios,
outras vezes são corações apaixonados,
extasiados compondo às suas musas.
Ah, os Poetas, alienígenas de letras douradas
que percorrem madrugadas,
que tateiam os sentimentos mais sutis
e os descrevem como ninguém mais o faz.


Jonas R. Sanches
Imagem: Google

Semeaduras Silenciosas das Madrugadas



No silêncio cabuloso da madrugada
eu cultivo sonhos, alguns fantásticos
d’onde arranco estrelas do firmamento
e guardo-as entre os versos da poesia

que fala de alinhamentos celestiais
ou de dias comuns como outros quaisquer
onde desperto junto a flor que germina
e empunho a pena e discorro em nanquim.

No silêncio fabuloso da madrugada
eu cultivo fantasias, algumas esdrúxulas
d’onde colho seres surrealíssimos
e cavalgo em tubarões com asas de marfim

que me carregam pelos mares, pelos ares
entre os pássaros de labaredas solares
que estridulam melodias agourentas
sobre os dias da profecia do porvir.

No silêncio suntuoso da madrugada
sou ponto de fuga de pesadelos escabrosos
que são labirintos com ninfas e minotauros,
infernos onde navego com Dante no Aqueronte

mas, inda há jardins pecaminosos babilônicos
e eu... Eu cultivo sonhos de todas as flores,
cultivo cores em prismas helicoidais
e no amanhecer eu semeio um vasto poema.


Jonas R. Sanches
Imagem: Google

sábado, 18 de outubro de 2014

Pessoas Estranhas e Açucenas



Pessoas estranhas leem poemas,
pessoas estranhas escrevem poesias,
versos e entranhas, signos e emblemas,
poetas e ascetas, vertigens e açucenas

desabrocham na noite, olores sensíveis
relembram poemas, perfumes plausíveis,
vozes e teoremas da boca da noite
que grita o açoite e refaz-se na estrela

que é lume, é mistério algures singelo
e a mão é o martelo e o céu é noturno
em cores de absurdos, aquarela macabra
pintada na madrugada comum à escassez

de um tudo e um nada dessa embriaguez;
pessoas estranhas leem poemas,
pessoas estranhas escrevem poesias,
pessoas estranhas cultivam açucenas,

pessoas estranhas observam estrelas,
pessoas estranhas derramam sentimentos
e o vento refresca pelas janelas do universo
que abrange a flor, o poeta e o verso.


Jonas R. Sanches
Imagem: Açucenas que desabrocharam a pouco em meu jardim

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Dicionário



Dicionário armado
de adjetivos, palavras;
sou subjetivo, artigo
e, substantivo; pronome
e o homem-sinônimo,
antônimo e Antônios;
dicionários linguísticos,
parassintéticos, sufixos,
prefixos prolixos, verbo
inenarrável parafraseado
e conjugado no passado,
pretérito e inquérito;
pensamento adverbial;
dicionário impróprio,
colóquio simultâneo,
palavras, frases, palavras;
poesia, verso, poema,
anátema poético,
feitiço de poeta...
Dicionário... Dicionários...
Aurélio, Houaiss, Michaelis,
Priberam, Umbandista,
Inglês-Português,
Alemão-Chinês,
Russo-Japonês,
Armênio-Irlandês,
Hebraico-Aramaico-Arcaico;
dicionário genérico
de significados repetidos,
signos repelidos,
dicionário armado... Amém.


Jonas R. Sanches
Imagem: Google

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Selva de Pedra



Nessa selva de pedra transeuntes
apressados não trocam olhares,
caminham trancados em suas jaulas
pessoais, arranha-céus observam
imóveis, cada um em seu lugar.

Nessa selva de pedra a poluição
mental ofusca meus pensamentos
e o sol brilha com diáfanas ideias,
a poesia de concreto é concreta.

Nessa selva de pedra homens-animais
digladiam-se com suas rotinas,
rotas cotidianas inalteradas,
trem, ônibus, metrô e aviões.

Nessa selva de pedra a morte
ronda pelas esquinas da vida
e o verso é o ritmo dos passos
entrelaçados aos olhares do poeta.

Nessa selva de pedra sons e silêncios
em alternâncias com o coração
que titubeante e ofegante
clama por dias de paz.


Jonas R. Sanches 
Imagem: André Deak

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Das Torturas de um Sol Escaldante



O sol desabou sobre nossas cabeças
agora navegamos em rios caudalosos
de um fogo que carrega os pensamentos
a lugares longínquos que amenizam o calor.

O sol duplicou o seu rebento
e do céu uma chuva de luz sem igual
vem fritar, torturar nossas poesias
e nosso sertão já é escasso de esperança.

No horizonte há vizires e miragens
de quenturas que causam-nos alucinações
e as flores que outrora eram viçosas
já murcharam em jardins e vulcões.

No horizonte um infante agressivo
e o hoje é reflexo do sol de amanhã
que aterroriza e não ameniza um instante,
que nos olha com olhos de infernos constantes.

O sol desabou sobre nossas cabeças
engolindo a chuva que tarda a chegar,
a umidade são mares do nosso suor
que da fronte incessante tende a desabar.


Jonas R. Sanches
Imagem: Google

Soneto das Perplexidades de um Segredo Mudo



Olhar de frente e encarar o medo
deixar a frase se parafrasear
em liberdade guardando o segredo
do universo inverso a desencadear

um novo caso d’outros paradoxos
que pari a voz da perplexidade
cantando cantos inortodoxos
irresolvíveis como a flor da idade.

Olhar as cores vivas, pensamento
a metamorfosearem ao vento
de um sopro novo de entendimento;

lúcido algoz conciso incompreendido
de algo além que compreende esplendido
que todas as coisas estão em seus lugares.


Jonas R. Sanches
Imagem: Google

domingo, 12 de outubro de 2014

Das Poesias Nefastas e Sombrias



A poesia às vezes sombria
como a alma noturna
que cala e vislumbra
o silêncio distante das estrelas,
o sorriso intrigante da esfinge,

o mistério antigo das pirâmides,
o amor proibido de Édipo,
as flores dos jardins babilônicos,
os rifes da guitarra de Hendrix,
o piado sinistro da coruja,

os símbolos herméticos da magia,
as cores aquareladas do fim do dia,
o revoar depressa do beija-flor,
a sensação fulgurante do amor;
a poesia às vezes sombria

como o verso negro do necromante
que invoca fórmulas infernais,
que recita estrofes e feitiços
que são macabros como a dor dos mitos,
que são aziagos como os ecos do grito,

que são nefastos como a voz do erudito,
que são funéreos como o rito maldito
de descalabro, obnóxio mortífero;
a poesia às vezes sombria
como a inércia controversa da alegria.


Jonas R. Sanches
Imagem: Google

sábado, 11 de outubro de 2014

Jacaurélio e a Bruxa Avestrilda



Lá vem ele pela estrada, com sua boca pluridentada e sua cartola amarelada, avistou ao longe a embaúba, ouviu o canto da graúna e o riso da criançada, logo veio em sua memória aguçada a nova história a ser contada; se achegou e acenou, entre as crianças se sentou e enquanto a madrugada se despedia em surdina, Jacaurélio com as pestanas pensativas deu início à narrativa.
Dessa vez ele contou sobre a Bruxa Avestrilda, que era muito engraçada e com sua varinha mágica só fazia trapalhadas.
Em uma dessas travessuras, Avestrilda sem querer fez na noite aparecer o sol no lugar da lua, foi então que Dona Corujina, que inda era uma coruja menina começou a sofrer de insônia e de calvície de plumas.
Em outro caso o que ela fez foi um pouco pior, foi tentar modificar a harmonia das músicas da passarada, mas ela só conseguiu uma proeza desastrada, agora o Sr. Uirapuru tem as penas de apenas uma cor e seu canto que era diverso agora todo transverso só estridula em si menor.
D’outra vez foi mais confuso, pois todos os sapos criaram asas, então ao invés de eles coaxarem nas madrugadas saíram todos voando pelos quatro cantos do mundo.
Teve outra travessura, essa foi uma loucura, é segredo... Na floresta aconteceu que agora tem um pato que até late, travessura de Avestrilda, e tem mais serelepagem, dessa vez o que ela fez foi disparate, pois em todos os pés de frutas da floresta descambou a nascer tomate.
Mas apesar de todas essas lambanças, Jacaurélio recordava claro em suas lembranças que a Bruxa Avestrilda, mesmo sendo tão confusa e distraída, adorava todas as crianças.
O tempo foi passando e a Bruxa Avestrilda envelheceu, foi então que o poder de sua varinha e sua desengonçada bruxaria cresceu, e é por isso que na floresta quando chega à madrugada, a bicharada desata logo a se esconderem, com medo de serem vítimas d’outro feitiço desastrado de efeito contrário e complicado que a Bruxa Avestrilda recitou errado, igual aquele caso isolado onde o Dom Tatu virou pneu.
A tarde passou depressa e em Jacaurélio bateu a pressa, então apoiado em sua bengala se despediu da criançada e seguiu todo apressado pela estrada, hoje ele partiu mais cedo, pois não é que Jacaurélio ficou tremendo de medo de cruzar com a Bruxa Avestrilda e acabar acordando com cara de caranguejo.


Jonas R. Sanches
Imagem: Google

Anátema de Trovador



De súbito uma atônita inspiração
e a poesia metamorfoseou-se em mim
como um casulo de palavra-borboleta
em cores inóspitas de um coração.

Comiserou-se a letra pálida e o poema
arquitetou-se como estrofe ignota
então fluiu do verbo a nova nota
que dedilhada foi tal qual canção serena.

Harmonizou-se e transmutou-se a flor
em um planeta alquímico de pensamento,
poetizou-se a felpuda rosa escarlate
eternizando, polinizando esse momento;

e o poeta desanuviou-se em explanação
d’algum mistério que intrigou o trovador
em seu anátema interior que enfeitiçou
as mil donzelas que espreitavam-no pelas estrelas.


Jonas R. Sanches
Imagem: Caravaggio - St. Jerome

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Indriso das Flores das Campas



Dos ossos antigos esboroados
partículas dos tempos escafelados
guardados em tumbas de citadinos

em campas de flores ornamentais
pisoteadas pelo andar dos peregrinos
que caminham suas sendas horizontais.

E a cor da morte é rubra e ensombrada

contrastando com a vida ensolarada.


Jonas R. Sanches
Imagem: Reuters

Indriso do Orvalho Primaveril



Eis que a sensação é o verso
transposto, inócuo, reverso
como o olhar da morte, anexo

ao fulgor da vida, prolixo;
e a primavera é ardor anímico
que floresce, jardim sinonímico

de amor pela flor que germina

e, que no orvalho é pétala menina.


Jonas R. Sanches
Imagem: Google

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Indriso da Lua Cheia



Sou de sangue borbulhante adoentado
ignorante aos auspícios dessa dor, fulgor
que embriaga e ameniza o alienado

sou de vertente imponente desse amor;
poeta escasso de entusiasmos, ambiguidades
que esmorecem, que desfalecem minhas idades.

E a lua cheia tal qual sereia da meia noite

é a candeia bruxuleante, clamor do açoite.


Jonas R. Sanches
Imagem: Google

Poeticamente Poético



O poeta é astro que embevece horizontes
enlevando almas e corações, cores astrais
que se destacam aos olhares ternurentos
entardecidos em sentimentos surreais.

O poeta é pássaro em penugem multicor
que sobrevoa os píncaros da liberdade
estridulando entre os versos os seus cantos
que ribombem em ecos de eternidade.

O poeta é a flor que desabrocha lentamente
em um jardim de beija-flores alienígenas
que batem asas prodigiosas dentro da mente
que lentamente concatena a inspiração.

O poeta é o pranto de um pecado arrependido
em um inferno gélido de espíritos e perdões
que se propagam em letras de misericórdia
pelos cadernos infinitos das lúdicas emoções.


Jonas R. Sanches
Imagem: Google

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Soneto de um Silêncio Vespertino



Momento intenso de silêncio interior
intercalando algum riso, alguma dor,
vislumbre profundo, algo transcendental
que vai transpondo a noção de bem e mal.

Momento oco em silêncio vespertino,
recordações de quando era menino
mas vai o tempo deliberadamente
e o que fica são as sequelas na mente.

Momento imerso em verso de soneto
que discorre o profundo sentimento
que é pululante dentro do coração,

que é repleto de discreta sensação;
momento reto, disparate em poesia
embriagante de sóbria emoção e alegria.


Jonas R. Sanches
Imagem: Google

Impressões Noturnas



E quando o dia partiu
ficou a mancha no horizonte
despertando nostalgias,
pintura esbelta de cores

então, foi silêncio e crepúsculo
e o firmamento escureceu,
azul marinho veludíneo
que de estrelas se preencheu.

E quando o dia partiu
esvoaçaram pássaros noturnos
quando soou o pio da coruja
que despertou grilos mandrujas

roubando a noite com criquilos
e o curiango de olhar soturno
com seus hábitos diuturnos
fez serenata com o urutau.

E quando o dia partiu
no céu a lua fez-se cheia,
no rio cantaram as sereias
e o marinheiro naufragou

e a água que o engoliu revolto
refletia olhares absortos
dos moços que viraram botos,
das lendas que a vovó contou.

E quando o dia partiu
despertou o poeta cancioneiro
dedilhando seu verso mateiro,
percorrendo as vagas do sertão

por onde a cantiga foi consolo
e um pirilampo alumiento
trazido pela lufada do vento
seu coração iluminou.


Jonas R. Sanches
Imagem: Ben Canales

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Poema Sonhador



Sonhos com cores translúcidas
refletidos em olhares diáfanos
que miram em espelhos plácidos
em noites de firmamento ébano.

Sonhos sonhados lúcidos,
tão lúcidos como o amor de Édipo;
sangrentos como os rios da guerra
que regam com vidas a terra.

Sonhos fúnebres quiméricos
insanos como o ventre bélico
que pari a dor e a amargura,
que varre a morte por lonjuras.

Sonhos cálidos e ternurentos
enveredados pela senda do vento
que voa livre sem preocupar o tempo,
que canta seus sibilos de lamento.

Sonhos letrados de versos poéticos
na mente do poeta que sonha acordado
enlevando o pensamento ao seu estágio alado,
enlevando a poesia aos píncaros oníricos.

Jonas R. Sanches
Imagem: Google

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Jacaurélio e a Terra Encantada dos Seres Elementais



Lá vem ele pela estrada com a boca pluridentada, um arsenal de histórias guardadas em sua memória, memória farta de aventuras que contam no tempo suas lonjuras e, hoje vem trazendo à embaúba a fantasia à criançada, vem com seu terno e sua cartola amarelada, vem apoiado em sua bengala falar sobre o Mundo das Fadas.
Jacaurélio se achegou mui sorridente e seu semblante era de flor intuitiva e foi então quando cantou o Pintassilgo que ele pôs-se a discorrer a narrativa.
Falou de um tempo onde reinava a magia, falou de um reino mágico escondido na floresta, até cantou uma canção das Salamandras que para o fogo da noite faziam serestas; e foi contando, descrevendo maravilhas, contou da terra onde viviam as Fadas Madrinhas.
Disse que lá era uma terra abençoada onde nasciam lindas flores de redodendro, também cresciam orquídeas pelos penhascos onde viviam os Silfos guardiões do vento, era uma terra revestida de belezas d’onde do solo brotavam muitas riquezas que os Gnomos guardavam com amor e zelo, riquezas tantas, muito além de qualquer dinheiro.
Disse que os rios desaguavam em esbeltas cachoeiras onde viviam as Ondinas inda meninas, também nas águas havia Botos-Cor-De-Rosa que cantavam as canções doces e harmoniosas, nos lindos vales havia lagoas mansas e cristalinas e suas águas eram de brilhos purpurina que regavam flores de todas as espécies, girassóis e heliotrópios que eram polinizados pelas Cantáridas, entre as montanhas havia campos verdejantes que contrastavam com o vermelho das papoulas onde viviam as Fadas que ali reinavam, também havia Sapos entre as taboas.
No fim das tardes pelas clareiras se reuniam Grilos e Cigarras, Pássaros raros e suas melodias, era a orquestra que em sinfonia ao arrebol fazia festa para se despedir do Rei Sol, e quando a noite caia eram as luzes dos Pirilampos que iluminavam e voavam junto aos Dragões que protegiam os arredores daquelas terras com labaredas que se assemelhavam aos vulcões.
Por muitas eras reinou a paz na Terra Encantada dos Seres Elementais, mas, vieram homens e fizeram guerras, sangue e espadas bramiram por aquelas terras, então para impedir o final daquele paraíso eis que o Mago Jacamérlim em seu bom juízo envolveu aquelas belas terras em um feitiço de proteção, e até hoje só é permitido pisar aquele chão os seres bons que são puros de coração.
Assim o dia foi passando bem depressa e junto da história de Jacaurélio chegou ao fim e a criançada na embaúba, maravilhadas, partiram juntos com Jacaurélio e caminharam pela estrada dos jasmins... No fim da estrada havia uma bifurcação, então ali deles Jacaurélio se separou, deixando no ar o mistério em sensação, deixando as crianças ansiosas pela próxima narração.
E Jacaurélio caminhou até o seu recanto onde sua esposa Jacarandira o esperava com seu encanto, então se recolheram e adentraram o seu lar e entoaram uma canção de ninar.


Jonas R. Sanches
Imagem: Denise BC

Pássaros, Flores e Bucolismo



A aurora inda não despontou,
na janela nenhum pássaro cantou,
apenas grilos azucrinam sem param
querendo o verso doce a estridular.

A madrugada lentamente vai partindo,
última estrela se apagou e adormeceu,
ouço o gorjeio primeiro da juriti
e o sabiá canta primevo no pé de caqui.

Lá vem o sol com seu calor vibrante
e as garças passam em um bando a revoar,
papa-capim e cambacicas a tilintar
e as maritacas em grupo a gracejar.

Lá vem depressa em sua graça o beija-flor,
tem pássaro-preto e tico-tico do café,
tem pardaizinhos acordando no beiral
e os melros cantam em harmonia sem igual.

Na flor o orvalho é bebido pelo tiziu,
e as borboletas multicores são um festejo,
abelham zumbem na flor da jabuticabeira,
aranhas tecem suas teias na roseira.

Essa é a alvorada bucólica do meu sertão
embelezando, causando espanto no coração,
esse é o equilíbrio tão perfeito da natureza
que revigora a nossa alma com sua beleza.


Jonas R. Sanches
Imagem: Yasunari Kawabata

domingo, 5 de outubro de 2014

Do Amor de uma Noite Afável




Na noite próspera
o amor amaina as dores,
o aconchego é incolor
e traz-nos a paz.

Na noite amena
meu amor é açucena,
seu afago é doce
e traz-me a luz;

luz de poema apaixonado,
luz bruxuleante de mago,
mago-poeta, mago-asceta,
que ama verdadeiro.

Na noite agradável
o abraço afável,
entrelaço inevitável
e o nosso beijo é paixão;

paixão eterna,
tatos aflorados
como abelha e pólen
somos néctar e beija-flor.

Na noite o nosso chamego
sem dúvida, sem medo,
apenas a estrela e o segredo
guardado no nosso beijo.


Jonas R. Sanches

sábado, 4 de outubro de 2014

Quando Nascem os Poetas



Quando nascem os poetas
céus e infernos regozijam-se,
sóis e luas encontram-se
e bailam com anjos e demônios.

Quando nascem os poetas
flores e cores misturam-se,
florestas e desertos beijam-se
e proliferam suas sementes.

Quando nascem os poetas
fogo e água complementam-se,
terra e ar entrelaçam-se
e dançam todos os elementos.

Quando nascem os poetas
a vida e a morte coexistem,
princípios e finais viravolteiam
e a roda cósmica é continuação.

Quando nascem os poetas
luzes e escuridões unem-se,
iridescência e treva amam-se
e apaixonam-se eternamente.

Quando nascem os poetas
amores e ódios dissipam-se,
vingança e perdão inexistem
e é apenas a poesia em eclosão.

Quando nascem os poetas
corpos e espíritos transmutam-se,
mente e alma fundem-se
em um só elemento poético.


Jonas R. Sanches
Imagem: The Bird Man by Nikki Pinder

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Do Grito Mudo do Verso Notívago



A poesia em letras notívagas
em sentimento negro como a noite
órfã de lua, decepada à estrelas,
como um grito de dor do açoite.

A poesia em verso merencório
em sentimento plúmbeo doentio
órfão do riso, penumbra obscura,
como o feitiço franco que eclodiu.

A poesia cantada e dita muda
em sentimento fúnebre peremptório
órfão do dia, convexo reflexo
como o espelho procrastinatório.

A poesia que grita o meu silêncio
em sentimento nulo expansivo
órfão de luzes, escuro expressivo
como o profundo da insensatez.

A poesia agora cantante e vibrante
em sentimento ébrio infinito
órfão do grito, ecoando espasmos
como a penumbra mansa do marasmo.


Jonas R. Sanches
Imagem: Google

Realidade de um Circo chamado Brasil



É chegado tempo de mudança
mas, os famigerados vivem de bolsas,
bolsa família, quadrilha, ladrão,
não querem modificação
vendem seu voto por um naco de pão

e os que trabalham, esses são coitados
e pense então nos aposentados
que outrora ergueram essa nação
agora tem que escolher

com a miséria que tem pra viver,
ou compram remédio ou alimentação;
comem o pão que o diabo amassou;
já aquele encarcerado

que estuprou, roubou e matou
sustenta a família de longe
e vive mamatas, tem regalias,
garante o salário de sua família

que o governo paga de bom grado
e, o trabalhador pobre desgraçado
paga mais de impostos do que de comida
esse é o Brasil, essa é a grande ferida

onde se esquece que é a educação
que pode formar o exemplar cidadão
e tem mais, no país da corrupção
a saúde se encontra em frangalhos,

o doente chega a ser humilhado
pra conseguir um parco atendimento;
esse é o Brasil que eu vivo, eu lamento,
esse é o país onde o circo estacionou

então seja consciente de frente pra urna
e não jogue de novo seu voto no lixo,
pois se continuar nessa toada eu desisto
e vou para o inferno, pois lá é mais limpo.


Jonas R. Sanches
Imagem: Chico Caruso

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Diagramas e Paradoxos Místicos de uma Alma Antiga



Minha alma antiga
sublimando meteóricas confidências,
recordando proféticas ilusões,
faraós e hierofantes em silêncio.

Minha alma mística
enveredando por sendas sutis,
evocando poéticos encantamentos,
salamandras e silfos sibilam.

Minha alma iniciática
provando dos percalços inevitáveis,
invocando arcanjos para a batalha,
anjos e demônios ceiam o mesmo banquete;

banquete de ossos e ressurreições
entremeio à cálices de sangue sagrado
assistindo homens degolando homens
e o apocalipse é logo ali

entre festins celestiais e bacanais pandemoníacos
e, a carne apodrece em seus pecados
e, o cerne é proliferação das dores;
quase inocentes àqueles que inda não nasceram...

Minha alma em transcendência
ascensionando por degraus de sofrimento,
pranteando às agruras descomunais
para adormecer à noite das eternidades.


Jonas R. Sanches
Imagem: William Blake
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