terça-feira, 31 de julho de 2012

Meu Momento de Reflexão




Olhando pelo reflexo da janela no espelho
vejo um borrão laranja de um sol esvaindo-se,
deixando em meu peito uma saudade intensa
de um tempo onde as ondas sussurravam cantigas.

A cada dia a poesia do arrebol é diferente,
é algo transcendente, que desanuvia a mente
e liberta por um instante todos os sentidos
quando os olhos cegam-se, a última luz diária.

Meus pensamentos sóbrios embriagam-se
em uma metamorfose de sensações.
E a mágica incessante dos movimentos permanece,
intacta e regente do equilíbrio harmônico da vida.

Uma busca diária incessante para desvendar o amor,
o amor na própria vida, ao próximo e ao incompreendido.
Uma senda trilhada com força e esperança... Colecionando arrebóis,
 versos e lembranças de um tempo que ainda não se foi.

E mais uma vez, agora é a noite que entorpece a cabeça do poeta...
Que se deixa carregar pelos encantos misteriosos de Aldebaran...


Jonas Rogerio Sanches
Imagem: Google

segunda-feira, 30 de julho de 2012

O Meu Sono Alienígena




O meu sono se esgueira pelas frestas,
e pelos cantos do universo eu durmo;
deixando evidências distintas no baú,
d’onde eu surrupio cantigas de ninar.

O meu sono levou meus olhos para passear
em jardins tão vastos que me perdi de mim;
e me perdi de você, e o sol cegou os pássaros,
pobres gaivotas agora sem nervos ópticos e nem pescarias.

O meu sono pesado é muito leve no espaço sideral,
e entre os vácuos dos quartos de hotéis baratos me canso.
Pobres homens que trabalham muito e não adormecem,
eles tem pálpebras marinhas e eu construo nebulosas...

O meu sono não voltou, ele levou meu corpo astral...
Agora eu adormeço entre as estrelas, e os planetas cessam...
Somente o quarto crescente da lua me assiste
e eu me derramo em chuvas de meteoros glaciais.

Quando eu acordar desse transe te darei meu leito,
e te darei meu sono tão vagabundo, e travesseiros...
Pois já estou cansado de tantos lençóis e despertadores,
eles já não saciam minhas vontades insanas e alienígenas...

O meu sono não voltou, os caminhos do labirinto se fecharam...
O que resta é somente uma passagem secreta por onde eu morri...


Jonas Rogerio Sanches
Imagem: Google

domingo, 29 de julho de 2012

A Flauta Mágica Dissonante







Grita a flauta, e a mágica é a dos elementos,
som do ar que se esvai do pulmão artístico;
deuses e guitarras fazem assembleias
e meus tímpanos se amaciam em um velho rock.

Arpejos e lampejos psicodélicos,
cores remetidas pelos sons melódicos
e viajo nessa locomotiva divina
entre as estrelas meteóricas desse frenesi.

Soa o acorde em escala cromática,
espalha a cura entre as almas doentes.
Matemáticas, tão absurdamente perfeitas,
que até os números fazem o equilíbrio das cordas.

Ouço essa melodiosa flauta entre os suspiros,
recordo os banquetes com Pã e um Fauno;
recordo minha embriaguez e os vinhos de Baco,
é a mágica dos quadrantes cósmicos.

Deuses e guitarras nessa sinfonia paradisíaca,
eu e os deuses mitológicos rasgando céus,
tridentes e sorrisos no fundo do oceano do eu mesmo
e, na cítara de Orfeu, resplandece o dia em fulgor solar.

Adormecerei mil eras entre os feitiços e sons de flauta...
E levarei ao meu sarcófago poesias embalsamadas...
Cantarei a doce morte em todos os meus versos
e acordarei quando o sol estiver em ápice avassalador:

somente para acolher meu amor sob minhas asas douradas.


Jonas Rogerio Sanches 
Imagem: Google

Eu Não Sei Fazer Chover




Pra que correr?
Se o tempo não tem fim...
Pra que morrer?
Se minha vida não termina...

Pra que chorar?
Se eu posso ir dormir...
Pra que viver?
Se minha morte nem nasceu...

Prefiro caminhar pelas trilhas pedregosas
Sem fardos nem bagagens pesadas
Meu sorriso é sincero e minhas palavras de alma
Minha vontade é suprema e meu amor voou

Então vou ficar calado e meditar
Vou escutar a própria voz da criação
E do verbo materializado vou tomar
Uma lição que habita somente meu olhar no espelho

Pra que sofrer?
Se meus cabelos estão crescendo
Pra que gritar?
Se meu silêncio fala por mim

Colisões são necessárias para haver mudanças...
E eu não sei fazer chover nos ásperos solos sertanejos...


Jonas Rogerio Sanches
Imagem: Google

sábado, 28 de julho de 2012

Homem sem Identidade




Somente a fome
E os olhos carnais
Degustando vitrines
Em ruas sombrias

Somente o homem
Alienado em desvarios
A bebida no casaco
E uma gaita ao luar

Somente a fome
E os medos noturnos
O frio dilacerante
Entre papelões e viadutos

Somente mais um
Ali jogado e esquecido
Deflagrado ali sentado
Como um simples vaso de vida

É o homem faminto
Deixado de lado
E a vida de uma esmola
Num olhar que se demora

Calado homem do mundo
Que é só mais um fulano
Ou beltrano... Tanto faz
Se ele morrer eu nem vou saber

É só mais um sistema falho
Desregrado pelo mundo
Sou só mais um vagabundo
Que desnudo passa fome

Somente mais um homem
Que passou e a vida não notou
Somente a fome nos olhos
E a noite fria entre papelões e viadutos

Enquanto lá no alto, manjares caros e sorrisos...


Jonas Rogerio Sanches
Imagem: Antony Gormley

Crepúsculo de Inverno




Ah! O crepúsculo...
Hora tão mágica
Detentora de todos os risos e lágrimas
É aonde me vejo transparente em reflexo

E a alma balbucia limiares lilases
Quando dessa hora cega aos olhos
Anjos assistem divinais corais transcendentes
E os ecos Eclesiásticos retumbam poeticamente

Pois é o beijo da luz nas trevas
O ciclo harmônico em plenitude
Fogareiro se acende nos crepitantes corações
E uma angustia sorrateira aperta a garganta

É a mágica... É o crepúsculo...
Rendendo espíritos livres elementais
E na floresta dos sonhos herméticos
Os Arcanos se multiplicam entre os cadinhos

Se fosse o sol meu guia... Adormeceria
Mas a Luz de minh’alma é o lampejo
E estrelas jorram dos pensamentos sutis
Produtos de evoluções e choques convulsivos

E nos meus sentires ríspidos
Degusto olores e olhares introspectos
Faminto das cores frias que cedem o entardecer
Pintando uma tela de autocompreensão com todas as nuances
Então resta um esboço de mim... No leito d’água
Se desmanchando junto ao dia... Alimentando a noite

E o fim é somente uma passagem natural entre começos...


Jonas Rogerio Sanches
Imagem: Google

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Na Nossa Alcova




É no aconchego de nossa alcova
Que nosso amor se apimenta
Quando no roçar de nossos corpos
Nossos desejos se alimentam

É na intimidade da nossa alcova
Que nosso amor transcende o real
Quando nossas bocas se encontram
Misturando nossos gostos... Nosso sal

É nessa alcova tão perfumada
Que adentramos as madrugadas
Degustando do nosso amor
Que em seivas puras nos embriaga

Quatro paredes... Muitos sentidos
Os nossos seres em sintonia
Na nossa alcova nos entregamos
Se amando até o raiar do dia


Jonas Rogerio Sanches

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Necessidades Desnecessárias




Necessária à fragrância da flor
E o colorido das penas do colibri
Jogo de amores seguindo o fluxo
Desnecessário demais coagir

Necessárias às poesias e a caderneta
Interagindo coerências e letras
Sob uma luz bruxuleante no abajur
Desnecessário encerrar o momento

Necessárias às letras do coração
E o próprio respirar noturno
Afagado pela sórdida solidão
Desnecessários o rancor e o medo

Necessito dos necessários prumos
Para alinhar minha voz ao sol
E gritar todas as labaredas de mim
Desnecessário eu colidir em erupções

Afinal eu necessito de dias e cadeiras confortáveis
Minhas vísceras doem quando acordo
E meu braço coxo dói há muitos anos
Desnecessário o lamento e a agonia

Pois a dor que me acompanha noite e dia
Fez-se professora e me formei na vida
Só necessito de um canto de sabiá ao amanhecer
E um olhar brando do anjo que me protege...


Jonas Rogerio Sanches

O Poeta, a Poesia e o Arrebol




Uma poesia perene
Entre o poeta e o arrebol
Um olhando o outro
Entre resquícios de um sol

Então o mergulho na penumbra
E o astro-rei mergulha na noite
Cedendo lugar a sua comparsa
E acendem-se as estrelas

E a poesia segue
Até se deparar à aurora
Poeta noturno e diurno
Amante das rosas

E dos olores à poesia
Dos pássaros trinares
Das cores as pétalas
E do poeta o observar

Sereno e singelo o olhar
E a brisa amanhecida
Retocando o rosto em ventania
Incessante o coração vibra

Um poeta e um arrebol
E as nuances divinas
Violetas e purpurinas
Refletidas nos sentimentos

E a poesia adormece mergulhando à noite...


Jonas Rogerio Sanches

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Dias e Mortes... Gritos de Vida...




Todos os dias são os mesmos dias
Todas as mortes são inalteráveis
Todos os sentimentos estão ocultos
E os medos correm dos pesadelos

Todos os dias já terminaram
Todas as mortes já viveram
Todos os sentimentos desfeitos
E os medos já temem aquele que não veio

Todos os dias eu morro e renasço
Sentindo que a ferida não cicatrizou
E meus medos são somente insanidades
Solidão é companheira de jornada

Todos os dias mortos em solitários cadafalsos
Todas as sensações frias em um coração gelado
E já não temerei o futuro incerto
Somente caminharei sem maldade alguma

Pois os dias são somente os gritos do tempo
E meus gritos serão os ecos dos meus dias
Não vou mais me sensibilizar pelos inícios
Vou tatear os meios e degustar os finais

Todos os dias são continuações de noites
Todos os gritos são continuações de vozes
E as mortes são as minhas continuações
Dos sacrifícios fúnebres na montanha

Todos os dias são de feitiços e mágicas antigas
Que morreram e foram sepultados em meu coração
Que petrificado pela vida tornou-se inacessível
Agora já não adormeço pelos cantos

Todos os dias eu acordo sem dormir
E vagueio pelo limite das realidades
Buscando as peças perdidas dos meus quebra-cabeças
Buscando um cálice de elixir ou de sangue sagrado

Todos os dias são devaneios
E as mortes são inevitáveis
Somente uma centelha restará
E meu olhar já não é o mesmo

Todos os dias eu vou morrer...
Todas as mortes eu vou nascer...
Todos os medos eu vou vencer...
Todas as noites em solidão necessária...


Jonas Rogerio Sanches
Imagem: Google

terça-feira, 24 de julho de 2012

Letras Vivas... Flores Mortas...




Cadernos desfolhados
Rosas em letras purpurina
Sem máculas e pecados
Frases transparentes... Dentro da mente

Rosas desfolhadas
Cadernos em letras grafite
Sem dores e sem arrependimentos
Versos brandos... Qual fogo do sol

Rosas e cadernos misturados
Em jardins soberbos de luz
Sem a inveja cravejada em caule seivoso
Poesia estranha... Nascida das entranhas

Rosas mortas em folhas de caderno
Despidas de toda a cor... Marca- páginas
Em edições de folhas tortas... Envelhecidas
Em riachos de amor... Embevecidas

Rosas sonhadoras em espinhos ríspidos
Meu coração nas páginas de um livro
Páginas dos meus próprios livros
Forjado em fogo d’alma... Minhas letras

Adormecidos em olor de rosas...
Rosas mortas desfolhadas ao vento...
Mas os pensamentos eternizam-se...
Então não morrerei... Ficarei em letras espalhado...


Jonas Rogerio Sanches
Imagem: Google

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Pleno Vazio




Como um som de guitarra eu vagueio no espaço
Decolando em nuvens poéticas de um chuviscar
E me derramo em novas notas feéricas e luzentes
Debruçando-me depois nas profundezas da terra
E as consonâncias se aplicam em prematura harmonia
Calando-me após o derradeiro acorde em serenidade
E somente aquela sensação de um vazio pleno e são


Jonas Rogerio Sanches

Sombras e Sonhos Inacabados




Sombras esquivas
Entre os esquifes
Que me assombram
Que fogem dos meus olhos de luz

Sombras desfeitas
Entre os holofotes
Que me cegam
Que iluminam os corredores

Sombras noturnas
Entrecortadas
Que se dividem
Que multiplicam os medos

Sombras nos olhos
Da menina soturna
Que caminha diuturna
Que se desfaz entre os becos

Sombras de um sol
Que descasca o mundo
Que desertifica sonhos
Os mesmos sonhos de antes

Sombras e sonhos
Desintegrando-se
Sonhos ungidos no castelo
Sombras ressuscitadas no porão

Sonhos e sombras
Febris e alucinantes
Os mesmos sonhos que acreditei
Agora desmentidos pelas sombrias vontades

Morte dos sonhos
E das sombras
E um renascer
De novas esperanças

Agora são sonhos novos
E as mesmas sombrias dificuldades
Refazendo-se em meu âmago
Iridescentes nessa diáfana luz

Sombras de um éter sonhado
E uma retorcida estupidez
Onde as formas não tem definição
Onde os cegos tateiam em vão

Meus sonhos sobrepondo-se as sombras
Caminhantes sonhos inquebrantáveis
Suspensos sobre esse plano sombrio
Planos feitos sob a luz das velas antigas

Meus sonhos imortais e lancinantes
Perfurando essa malha cósmica
Fazendo-me um grão-sonhador
Se desfazendo em mais uma curta vida

Meus sonhos luzentes
Minhas sombras acolhedoras
Meus passos cansados
E um final que não chega ao fim...

Meus sonhos... Acordados entre as sombras
Minhas sombras... Acordando os seus sonhos
Minha poesia... Tão sonhada e sombria
Meu próprio ser... Entre todos os devaneios

E o que ficou já é tão pouco que deixei para trás...


Jonas Rogerio Sanches
Imagem: Inacabados de João Alfaro

domingo, 22 de julho de 2012

Maratona de um Par de Calcanhares Descalços num Mundo sem Orelhas




Correndo entre essas frestas
Sem fim nem começo
Num mundo de altos e baixos
Onde as estrelas se misturam
Onde os camelos morrem sedentos
E um suicida escorpião bebe seu veneno

Correndo entre os maratonistas cansados
Nessas vielas atordoadas
Num mundo de desfiladeiros profundos
Onde as areias se colidem
Onde os cães ladram murmúrios
E um colibri corta suas próprias asas

Correndo incansável
Nessas harmonias em partituras
Partidas entre os compassos
Onde o arquiteto mede sua jornada
Onde o camaleão se mistura em cores
E um leão vende a própria juba em um mercado tailandês

Já não vou mais correr
Vou enfrentar essas muralhas
Vou fazer um negócio da China
Vou vender meu almoço
Pois hoje ainda preciso jantar
E minhas entranhas sangram

Vou ficar aqui um pouco
Vou ficar aqui pra sempre
Ou nem vou chegar a vir
Vou ficar calado e ouvir
A voz do mundo surdo
Que me canta poesias

Vou correndo no final do dia ver o sol partir...


Jonas Rogerio Sanches
Imagem: Google

sábado, 21 de julho de 2012

Lamentos e um Blues Jazzístico




Eu poeto aqui
Jogado as traças
Refletido na vidraça
Entre uma dor lancinante
E um sorriso sem sal

Eu poeto aqui
Minhas mágoas
Degusto lágrimas
Entre um soluço e um trinar
De um tordo sem par

Eu poeto aqui
Sobre a flor
Que se foi
Sobre a luz
Que se apagou

Eu poeto aqui
Meus sentidos
Contidos
E corações murchos
Estilhaçados... Partidos

Eu poeto aqui
Minhas tristezas
Minha grosseria
Minha destreza
Entre os verbos da natureza

Eu poeto aqui
O egocentrismo
O ostracismo
O seu olor partindo
Meus sonhos em saudade

Eu poeto aqui
Um blues sorrateiro
Um jazz matinal
Uma ressaca clássica
De um rock bem antigo

Eu poeto aqui
Eu poeto ali
Eu poeto no espaço sideral
Nos espaços entre os dias
Eu poeto porque amo poetar


Jonas Rogerio Sanches
Imagem: B.B. King

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Castelo de Ossos




Vejo esse castelo de ossos refletido no espelho
Ele tem uma torre de olhos fúnebres
Tem cabelos que tecem histórias
E nas têmporas uma língua extinta grita

Um castelo sombrio de fogos-fátuos
Onde a barba esconde os mistérios
A sombra e a luz sobrepostas em vitrais
E na garganta uma sequidão de ferro e fogo

Um fosso alimentando ideias escarnecidas
E um olhar de ossos gastos entre as labaredas
Vejo um ventre de sete filhos mortos
E seu estomago engolidor de esperanças

Vejo no espelho esse fêmur magro e osteoporótico
Ranzinza é seu sorriso entre lacunas de dentes trituradores
Os tímpanos são de um blues refinado e suave
Que como um cão rosna partituras em claves deterioradas

Subo a torre do castelo escalando suas costelas
Lá me encontro comigo mesmo, em alma
E os recônditos estreitos jorram luas minguantes
Então me sento a contemplar essa escassez de sóis

Vejo-me no espelho sentado a sacada desses ossos
Olhando de dentro pra fora ou de fora pra dentro
O que vejo são metacarpos e metatarsos feridos
E ouço já ao longe as músicas dos camponeses

Atravesso uma longa ponte de tíbias e perônios
Onde as pernas cansadas sentam-se em cadeiras de clavículas
Também descanso em uma rede de rachados calcanhares
E o que resta enfim sou eu decomposto em minhas falanges

Olho esse espelho de ossos sem fim
E minha própria ironia sorri para mim
Calo-me e me visto a pompa real
Para um baile cósmico e sem final


Jonas Rogerio Sanches
Imagem: Google

A Voz Misteriosa da Flor Azul




Diga algo flor azul
Pois sua beleza só não me contenta
Eu vejo a sua alma e vejo a minha
E sua alma cala em sua cor de céu

Cante pra mim, singela flor azul
Eu gostaria de ouvir as vozes das pétalas
Eu vejo seu olhar esnobe... Flor azul
Mas a sua beleza é fria e hostil

Não me olhe assim flor azul
E não me aponte esses espinhos
Teu caule imerso e pavoroso... Imóvel
Então pranteie sua solidão tolhida flor

Mas antes que o dia acabe
Peço-te ao menos suas injúrias
Pelo meu amor e descaso
Pois preciso ouvir sua voz

E na noite o frio será ameno
Pois sua voz encantará minha poesia
E no amanhecer terás outra de ti
E tu já falecendo terá o meu poema

Eu admiro sua pequena vida flor azul
De relance tímido e solitário me olhas
E eu cuido-te com ternura
Pois enfeita as manhãs no meu jardim

Cante comigo uma última seresta bela flor azul...


Jonas Rogerio Sanches
Imagem: Google

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Nebulosa de Orionte




Primórdios de vidas de um ventre
Que gera estrelas e pulsantes corações
Sou nebulosa inigualável de Orionte
As minhas cores refletem imensidão

Olhe-me bem nos olhos e imagine
Que já fui muitos mundos em colisão
Hoje a harmonia em movimento fez-me madrinha
Jorrando mundos novos e constelações

Tenho uma invejável utilidade no universo
Pois em Noús fiz-me manifestação
As minhas entranhas são hoje as luzes do amanhã
As minhas estrelas são um legado da criação


Jonas Rogerio Sanches

Meus Versos na Ventania





Vem o vento batendo na janela
Frio como um minuano
Trazendo o olor das cerejeiras
Vem de longe carregando um trinar do sabiá

Venta forte e sopra o mundo
Varre os tempos e as areias
Leva o pólen e semeia
Flores, frutos, lua cheia

Vendavais de devaneios
Pensamentos por inteiro
Da metade morde o mundo
No asteroide que não veio

Ventos venham em sibilos
Rasguem céus em tempestades
Erga a saia da menina-moça
Que caminha com suavidade

Vente e gire o meu moinho
Onde a vida gira em torno
Desse brisado em poesia
Entre palavras que eu estorno

Vente e leve meus sussurros
Dons Quixotes, Dons Casmurros
Leve o beijo à face dela
Que me aguarda na capela

Ventem ventos em viravoltas
Ventem com força limpando as revoltas
Ventos e brisas, gritos e resmungos
Varra o mal que não é deste mundo


Jonas Rogerio Sanches
Imagem: Salvador Dali

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Sonho-Precipício




Dormi
Sonhei
Caí
Gritei
Acordei
Transitei
Redormi

Sonhei
E voei
Precipícios
E inícios
Promíscuos
Eu gritei
Acordei

E dormi
Acordei
Que sonhei
Que voei
Que caí
Que morri
Que sorri

E dormi
Libertei
Alma-Rei
E planei
Sob o sol
Do arrebol
Acordei

E pensei
Se morri
Se vivi
Eu ali
Não dormi
Só sonhei
Que acordei


Jonas Rogerio Sanches
Imagem: Google

terça-feira, 17 de julho de 2012

Crônicas de Uma Alma em Transição




Noites corrompidas no silêncio
Entre as lápides do meu jardim
Vejo os outros ainda vivos
Não sabem por que vieram morar aqui

Noites sussurradas de gemidos
Enxergo tudo em mim contido
Já não vivo minha morte
Hoje morto vivo aqui aprisionado

Noites vazias entre as lápides
E mais uma vez eu não te aceitei
Cruel ceifadora de caules
Porque eu?

Noites tão frias de silêncio
Que deito em meu próprio cadáver
Nesse jardim de cruzes
Onde as flores nunca murcham

Noite enfim que me cansei
E aceitei o meu destino
Exacerbado em desatino
Pela luz eu implorei

Noite que a morte se fez dia
Fui cercado de alegria
Acolhido entre seus braços
Livre dos meus embaraços

Agora dia em que sou livre
Posso refazer família
Consertar a minha trilha
E na carne renascer


Jonas Rogerio Sanches
Imagem Google

Os Finais são Apenas Recomeços




Os finais são apenas novos começos
Veja a noite que finda em mais um dia
E o dia terminando na penumbra noturna
No fim da fruta a semente... Início da vida

Os finais nunca terminam e os começos são as continuações
Continuações de almas que iniciam vidas após mortes
Continuações de mortes que se desmancham em vidas
E os ciclos são perpétuos... O movimento é perpétuo

Os finais nunca são tristes nem felizes
São somente transições de opostos
E os começos são somente recomeços
Onde nos é dado outra oportunidade

Onde começa o meu amor por você?
Não tem princípio nem fim
Tem somente o amor... Um amor eterno
E mesmo em nossos finais continuaremos vivos um no outro

Onde termina esse mar infindável?
Deságua nos principio de uma nova maré
É como nosso amor, inexplicável
E os eternos explicam as inalterações

Quando chegarei ao fim?
Eu quero recomeços e novos pássaros
Meu relógio não tem pilhas
Pois meu tempo não tem fim

Quando recomeçarei?
Agora mesmo começo mais um dia
E termino mais uma poesia
Que não tem um final... Continua no próximo devaneio


Jonas Rogerio Sanches
Imagem: Google

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Palavras de um Inverno sem Fim




Palavras tem poder
Às vezes afagam
Às vezes machucam
Às vezes me calam

Palavras de amor
Exigem discernimento
Quando em verdade são repletas
Não se vão com o vento

Mas para dizê-las em poesia
As palavras descrevem dias
Ou noites tão solitárias
Onde escuto o próprio coração

Tantas palavras ditas em vão
Ou aquele grito de socorro
Palavras em desespero
Que não foram ouvidas

São tantas as palavras a serem ditas
Mas invoco meu silêncio
Prefiro guardá-las a perdê-las
Elas ecoariam pelo infinito

Gritaria o meu amor por ti
Mas hoje a tristeza me rouba as forças
Sou somente esse inverno que cala
E meu frio já dura incontáveis verões

Palavras que entalho no tempo
Que deixarei aqui quando partir
São nascidas no meu eu mais secreto
São as filhas virgens dos meus sentimentos


Jonas Rogerio Sanches
Imagem: Google

Na Calada do Dia




Sons diuturnos na enseada
E sibilos de um vento passageiro
A lagartixa mastiga um suculento jantar
E meus olhos ziguezagueiam entre as flores

Na redoma infinita do castelo de areia
Eu sou regente de um exército de borboletas
E compro todas as cores invisíveis dos camaleões
Somente para agradar o deus dos camundongos

Sumidouros no fosso engolidor de jacarés
E as lendas ficaram de barbas grisalhas
Sacis e curupiras cantam em praças urbanas
Em troca de umas moedas de chocolate

Tantos dias e noites sem um peixe no meu anzol
Pois não há mais rios nos legados da minha pesca
Mas eu ainda alimento os pássaros libertos
E eles retribuem cantando em meu pé de laranja lima

Devaneios desvairados em um insano poetar
Escondidos atrás de montes de vasos de heliotrópios
Em diálogos interessantes com uma coruja
Que me conta as suas observâncias noturnas

Então adormeço numa cama de girassóis
E o despertador clama um novo minuto vivido


Jonas Rogerio Sanches
Imagem: Google

sábado, 14 de julho de 2012

Polinização Alienígena




Na árvore da vida entrego-me às borboletas
De asas cintilantes e purpurinas
E vivo metamorfoses paradoxais
Num cálido segundo que deixei para trás

Ramifico-me e misturo-me as raízes do sol
Sol de árvores, e folhas, e galhos, e vida
Agora meus frutos são pérolas entre os espinhos
Busco sombras de figueiras para plantar minhas bromélias

Agora sou hibrido àquela orquídea
As nossas flores tem todos os tons
Os universais e os expurgos estelares
E sou afagado pelos colibris e pelas jataís

Seria o amanhã apenas mais uma semente?
Ou seriam dias de vida de um único jasmim?
Sei que sou flor, sou fungo, sou um pássaro cadáver
Alimentando abutres no deserto dos meus pensamentos

Agora já não sou mais
Fui o vento avassalador
E deixei sequelas nos mundos que passei
Alimento-me de flores, sou abelha alienígena

Chegou a hora da minha partida
Tenho infinitos roseirais para polinizar
E tenho um lar de maravilhas violetas
Onde minha rainha flor sublime aguarda o meu retorno

Jonas Rogerio Sanches
Imagem: Google

A Cantiga do Coelho de Alice




Hoje aqui com o meu coelho branco
Plasmando seres de barro e alfafa
Eu e a vida em acordes de guitarras
Com asas eu compro os infinitos cimos nevados

Eu aqui ouvindo White Rabbit
E os acordes têm cores de morte
Mas meu caixão é de diamante
E ali jazem as cinzas dos sábios

Eu aqui com meu cavalo branco
Meia dose e icebergs antárticos
Estremecem meus pensares
E a morte espreita e degusta vidas

Venha meu nobre coelho branco
E vamos cavalgar com Alice em sua prisão de alucinações
Colhendo cogumelos de ouro e fantasmagóricos
Venha coelho e traga-me a foice da morte

Enquanto isso as dobradiças temporais ficam rangendo
Eu prefiro viver a não voar pelas galáxias
Se não voastes coelho, levar-te-ia até sua alcova
E dormiríamos cantando todas as cantigas

Mas faremos rodas dançantes circularem as fogueiras
Pois essa é a noite das cantigas do coelho branco
Noite de cantigas moribundas e mortificantes
E serão as cantigas das cantigas de uma vida breve

Se achegue meu nobre coelho
E traga-me Alice e seus cogumelos
Traga também luas falantes e arrebóis de prata
Que cantarão enquanto o sol não surgir

Eu farei com minha flauta mágica vocês adormecerem
E despertarem dentro dos meus sonhos místicos
Vamos Alice... Sorria e adormeça nesse frenesi
Vamos Coelho branco... Adormeça saltitante!

Jonas Rogerio Sanches
Imagem: Shiori Matsumoto

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Escutando o Silêncio das Transformações




Escuto somente o silêncio do corpo
Mergulhado em si
Imerso em um uni (verso)
Paralelo de uma vida
Outra vida em si vivida
Ou um sonho sem desvelo

Escuto meu silêncio no espelho
E o reflexo de outro eu
Perplexo
Ou outro me olhando
Eu mesmo um reflexo convexo
Ou mesmo um sonho de algo superior

Escuto as vozes em silêncio
Agora eu só
Sombrio comigo mesmo
E cego com a própria luz
Trancafiado em uma bolha
Prestes a romper a casca da carne

Escuto ecos vazios
E vejo a frente um terreno fértil
A terra foi renovada
Eu agora o agricultor da vida
Em plenitude e alinhamento
Como eu fosse a própria semente

Escuto as raízes em vozes caladas
Elas ramificam minhas vontades
Por entre os sulcos da terra
Vejo o universo das vontades
E o Todo renascendo em germinação
Dentro do recipiente de eu mesmo

Agora ouço todas as vozes
Minhas células arquitetam entre si
Meu ser se modifica em equações
E desintegro os sentidos antigos
Agora ouço meu eu em um pensamento
Ele é uma grande vontade prima e cristalina...

Agora eu calo... Nesse grito de vida longo e silencioso...


Jonas Rogerio Sanches
Imagem: Google

Seresta da Minha Solidão




Hoje farei a seresta da minha solidão
Seresta que festeja as minhas dores
A minha vida em branco e preto

Hoje cantarei ao som de uivos minha seresta
Gritarei essa tristeza que corrói minha vida
Seresteiro morto-vivo entre espinhos

E deixarei os acordes dos tempos ditarem o ritmo
A percussão serão as lágrimas que guardo no peito
Então farei um choro de serestas, o canto da minha tristeza

Farei a seresta de mim, e adormecerei com a face pesada
Entrecortada por vontades que deixei para trás
Somente um tilintar de um sino dos ventos é meu companheiro

Envolto em vultos que me acompanham farei a companhia
E em coros fúnebres entoarão junto a mim essa dor
Triste seresta de um trovador-poeta, solitário no universo

Amanhecerei a aurora dos infinitos e me aninharei
Agora as serestas serão ouvidas somente pelo coração
Que no frio da alma busca vencer os desafios

E nas cinzas dos meus ossos o vento cantará nas montanhas as serestas de mim...


Jonas Rogerio Sanches
Imagem: Google
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